Os relatórios críticos da Inês Santos para Oficina da Artes

Os relatórios críticos redigidos pela Inês Santos, relativos à unidades de trabalho 2 e unidade de trabalho 3  de Oficina de Artes estão excelentes e por isso decidi reproduzí-los aqui no “Sala 17” como exemplo a seguir. Abarcam tudo o que deve estar contido num relatório desta natureza; resumem os objectivos da unidade de trabalho, descrevem a metodologia de trabalho usada e os resultados práticos do seu desenvolvimento e por fim, apresenta um juízo crítico fundamentado sobre os resultados obtidos. É isto mesmo!

Ut2 – “A Linha”

Relatório crítico

O objectivo da Unidade de Trabalho 2, sob o tema “A Linha”, era a exploração da linha. Através de um conjunto de linhas paralelas, posicionadas num plano bidimensional, deveríamos observar como é possível distorcê-las, dobrando ou amachucando esse mesmo plano.

Numa primeira fase, criei um modelo: numa folha de formato A3, desenhei e pintei (a tinta da china preta) uma sequência de linhas, de 1cm de largura e intervaladas por espaços de, também, 1 cm.

Na fase seguinte, ondulei a folha onde as linhas tinham sido desenhadas, tendo o cuidado de não a amachucar, criando um padrão visual de linhas com as mais variadas curvaturas. Num suporte à parte, também em formato A3, representei a lápis, inicialmente, os padrões visuais que a folha apresentava. Defini, sobre o desenho a lápis, duas zonas distintas, sensivelmente com a mesma área: uma em que avancei com uma representação gráfica, sem nuances (sombras ou brilhos), do modelo observado; outra em que pus em prática uma representação plástica (incluindo todo um leque de variações de cinza – do branco ao negro -, tendo cuidado em representar todos os valores e sombras presentes no modelo real) do modelo que observava. Estas representações (plástica e gráfica) foram ambas conseguidas com tinta da china. Inicialmente, foi difícil conseguir representar o modelo, dando a noção de curvas e contracurvas que este apresentava tão claramente. Lentamente, desenhando e corrigindo, penso que consegui atingir uma boa representação – não exactamente como gostava, mas, ainda assim, boa.

Na terceira fase, o objectivo foi representar o modelo ondulado em registos rápidos (num tempo ideal de cinco minutos), de várias perspectivas, tendo em conta a sua expressividade. Estes registos, primeiro realizados a caneta e depois a tinta da china, fizeram parte da fase que mais gostei desta Unidade de Trabalho – ao desenhar num espaço de tempo estipulado, e sendo este curto, começamos a atentar nas características mais importantes do modelo, aquilo que o identifica e isso acaba por ajudar muito nas representações seguintes, mais cuidadas.

Na fase seguinte, a quarta, o objectivo era conseguir um registo impressionista do modelo, tentando eliminar por completo o desenho preparatório. Este registo, realizado a tinta da china, ajudou-me a aprender a controlar este material (a sua opacidade, e a sua fluidez, jogando com a quantidade de água adicionada ou não) e o gestos da minha mão e, consequentemente, do pincel. Penso que teve um bom resultado – tentei ao máximo livrar-me do desenho preparatório e, em certas partes, fui bem sucedida.

A quinta fase consistia na representação gráfica e plástica do modelo, semelhante à da fase 2, mas, agora, com o modelo amachucado. Observei, assim, uma série de linhas quebradas e rectas e representei o meu modelo amachucado, primeiro a lápis e depois a tinta da china. Nesta fase, notei uma melhoria significativa em relação à fase 2 – creio que os registos rápidos ajudaram na compreensão dos detalhes mais importantes (treinei o olhar, dirigindo-o imediatamente para o que interessa, e o traço, tornando-o, ainda que pouco, mais livre).

A fase 6, última desta Unidade de Trabalho, consistia em criar um padrão gráfico, conjugando linhas rectas e curvas. O objectivo era criar um ritmo visual através da repetição e do emprego de diferentes espessuras de linha. Tenho de admitir que, nesta fase, os meus resultados finais não coincidiram completamente com os objectivos definidos. Na verdade, não compreendi totalmente o trabalho pedido e, por isso, não fui capaz de o realizar adequadamente. Tínhamos, parece-me, de criar uma composição de linhas rectas e curvas sem pensar demasiado, sem forçar demasiado o traço. Penso que o que não compreendi exactamente foi o conjugar das ideias de padrão e da criação de uma composição livre, sem pensar demasiado.

Em retrospectiva, acredito que realizei um bom trabalho. Foi uma unidade de trabalho interessante, que explorou algo que ainda não tinha explorado (pelo menos não deste modo). Deu-me a conhecer artistas como Tavik Simon e Bridget Riley, apontados como inspiração para as fases 4 e 6. Gostaria de ter produzido uma melhor composição na fase 6 e penso que, agora, após ter reflectido sobre todo o trabalho, conseguiria fazê-la melhor.


Ut3 – “As Cores da Cor”

Relatório Crítico

O objectivo desta Unidade de Trabalho era abordar e explorar a cor. Através das três cores primárias, Cian, Magenta e Amarelo, estudámos a cor e as suas características, trabalhando sempre com tintas acrílicas.

Na fase 1, cobri três folhas de tamanho A3, devidamente marginadas, com as três cores primárias (cada folha com a sua cor). O objectivo era atingir a máxima saturação das três cores, numa superfície homogénea. A princípio, foi um pouco difícil atingir a homogeneidade das cores, mas, fazendo e refazendo o exercício, lá consegui chegar.

Na fase seguinte, pretendia-se que, em três folhas de formato A3, apresentássemos quatro valores de saturação diferentes para as três cores, sempre do mais saturado ao menos saturado. Para esta fase, utilizei a técnica da velatura, a qual achei bastante útil e eficaz. Na folha dividida em quatro, comecei por dar uma passagem de tinta muito diluída em toda a folha. De seguida, após esta camada estar seca, apliquei uma outra, com um nível de diluição um pouco menor – mas apenas em três das quatro partes da folha. E assim fiz, preenchendo sempre, e de cada vez, uma zona a menos do que na passagem anterior, até atingir, em todas as cores, a máxima saturação. Para mim, a gradação do amarelo foi a mais fácil de conseguir, tendo sido a do azul a mais difícil.

Na terceira fase, era-nos pedido que dividíssemos uma folha A3 em oito partes iguais. Num esquema de sobreposição das três cores primárias, as oito partes deviam apresentar o Cian puro, o Amarelo puro e o Magenta puro (cada cor numa divisória distinta), a sobreposição de todas as cores e a sobreposição das cores duas a duas (Cian/Amarelo, Cian/Magenta, Amarelo/Magenta). A divisória sobejante ficaria a branco. Para esta fase do trabalho realizei diferentes esboços, tentando saber qual o nível de diluição certo para cada cor, de modo a que, quando sobrepostas, originassem a cor certa. Por exemplo, apercebi-me de que, para, na sobreposição do Amarelo e do Magenta, obter Vermelho, o Magenta deve estar em maior quantidade do que o Amarelo, devendo este último estar sob o anterior. Após conseguir a cor desejada através do sistema da sobreposição, misturei, num godé à parte, as cores primárias (aos pares e todas juntas), procurando o resultado que achei ideal, independentemente do que tinha conseguido com as sobreposições. Pintei parte de cada divisória com a cor misturada à parte, por cima de metade da cor derivada da sobreposição – por exemplo, sobre a sobreposição do Amarelo com o Cian, que origina verde, pintei um verde idealizado por mim, que resultou da mistura das duas cores primárias feita à parte.

Na fase 4, o objectivo era, após uma pesquisa da vida e obra dos artistas Gerhard Richter e Jackson Pollock, criar duas composições abastractas – uma baseada na técnica de Pollock, o dripping, (F4P) e outra na técnica de arrastamento de Richter (F4R). Devíamos recriar a visão de cada um dos artistas, explorando as noções de espaço e textura presentes nas suas obras. Para esta fase, de modo a conseguir, na tinta acrílica, uma consistência semelhante à tinta de óleo, foi necessário misturá-la com cola branca, que, depois de seca, se tornasse transparente.

Para a composição F4P, encontrei uma grande dificuldade em encontrar a consistência certa para a realização do trabalho: era preciso que a tinta, quando num pincel ou outra ferramenta, escorresse fluidamente num fio, ininterrupto. Após várias tentativas, apercebi-me de que o “segredo” estava na proporção entre a cola e a tinta – uma pequena quantidade de tinta para uma grande, exageradamente maior, quantidade de cola (provavelmente, o triplo ou quádruplo da quantidade de tinta). Decidi-me por um fundo escuro, coberto por tinta escorrida, gotejante, branca, preta e vermelha, cada uma em diferentes quantidades. Gostei do resultado desta composição, embora ache que não se assemelha suficientemente à obra de Pollock. A técnica está presente, mas talvez seja a pouca saturação visual que a afasta do que observei nas obras do artista.

Para a composição F4R, a consistência da tinta não foi o problema, mas sim o atingir de uma noção de profundidade. As obras de Richter são dominadas pela evocação de espaços, muitas vezes paisagens. Esse deveria, também, ser o nosso objectivo. Realizei várias experiências, com várias cores, usando diversas ferramentas de arrastamento. Gostei particularmente das obras de Richter que apresentavam uma espécie de “véu” de cor clara e diluída, sobre um fundo de duas ou três cores. Tentei reproduzir este aspecto da obra do artista, arrastando a tinta com réguas e espátulas. A princípio misturei muito pouca, ou nenhuma, cola à tinta aplicada no papel; mais tarde, apercebi-me de que a cola impede que a tinta seja totalmente absorvida pelo papel e, por isso, permite um arrastamento mais livre e prolongado da tinta e concede-lhe um maior brilho. Desta forma, passei a misturar mais cola na tinta que aplicava no papel. Estou satisfeita com a composição que consegui. Apesar de preferir a obra de Pollock à de Richter, preferi explorar a técnica de Richter à de Pollock – senti que, na composição F4R, existia um objectivo mais claro, com mais sentido, do na composição F4P. Não posso dizer que cumpri todos os objectivos desta quarta fase, mas penso que explorei devidamente as duas técnicas, realizando uma considerável quantidade de esboços e, deste modo, fui capaz de incluir um pouco de “Pollock” e de “Richter” nas duas composições pedidas.

Esta Unidade de Trabalho, devo admitir, não foi do meu total agrado. Aprecio as obras de Jackson Pollock e Gerhard Richter (e, na verdade, aprendi a apreciá-las mais e melhor – ou apenas de modo diferente – desde a realização deste trabalho), mas explorá-las não me agradou especialmente. No entanto, fiquei surpreendida pelo processo que antecede a realização destas obras: é de facto necessário pensar profundamente antes de as realizar, coisa que não julga precisa (pelo menos, não desta forma). Acreditava que estas obras eram apenas experiências inovadoras, que não possuíam qualquer tipo de pensamento profundo por detrás delas.

Inês Neto dos Santos

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