Helena Almeida (1934-)

© Helena Almeida. “Estudo para um Enriquecimento Interior”, 1977

Artista portuguesa, nascida em Lisboa. Licenciou-se em pintura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL). Desde o início do seu percurso artístico, em 1961, na II Exposição Gulbenkian, Helena Almeida procedeu a um constante questionamento dos meios tradicionais da arte, quebrando as fronteiras disciplinares, sobretudo a pintura. Essa reflexão é paralelamente acompanhada pela prática constante da auto-representação fotográfica. Em 1967, apresentou a sua primeira exposição individual na Galeria Buchholz, em que a pintura já começava a “sair” do quadro. Helena Almeida passou em seguida a habitar dentro da obra, a fazer dela a sua casa, o seu corpo, por vezes em estreita relação com a performance. (…)

A sua obra, muito diversificada (pintura, desenho, instalação, escultura e gravura), tem um denominador comum: a fotografia.Pela primeira vez, em 1967, expõe individualmente na Galeria Buchholz, onde apresenta uma pintura abstracta geométrica, usando o azul e o laranja e interrogando a natureza e a função dos suportes e da moldura (colecção CAMJAP). Já nesta fase se encontram os primeiros indícios de uma saída física da tela, protagonizada, neste caso, pelo deslize da moldura para fora do lugar da pintura.

© Helena Almeida. “Ouve-me”, 1979

Nos anos seguintes, surgem as instalações feitas com utensílios de uso doméstico (flores de plástico, tule…) e os desenhos com colagem de fio de crina. Estes últimos fazem coexistir o plano e o volume numa delicada mas poderosa submissão à fisicalidade da linha. Numa performance documentada em vídeo (colecção CAMJAP), a palavra “ouve-me” é desenhada sobre um papel no espaço da boca, que o sorve por trás, e remete para a série de fotografias (1979) em que, como um fio, o desenho da palavra lhe “cose” os lábios. Em 1969, e pela primeira vez, faz-se fotografar pelo seu marido (o escultor e arquitecto Artur Rosa), de corpo inteiro, agarrando uma tela rosa sobre o peito.

Na década de 70, com as séries PinturasDesenhos Habitados, a artista revela uma profunda meditação sobre os efeitos decorrentes de “tentar abrir um espaço custe o que custar”, como na obra Tela Habitada (1976): representa e utiliza o seu próprio corpo numa sequência de imagens em que simula romper a tela e, ainda que aparentemente o consiga, na penúltima fotografia, percebe-se que o seu objectivo não é alcançado, sugerindo depois o recomeço de modo cíclico, infindável.

© Helena Almeida. “Pintura Habitada”, 1975

É ainda a figura do rasgão que organiza a sua “entrada” no espaço da tela ou do papel, na obra Corte Secreto (1981), também integrada na colecção do CAMJAP. O questionamento e a desconstrução do espaço da obra e daquele que o envolve, do lugar do artista dentro e fora deles ou em limiares de transição entre eles, constituem os principais enquadramentos conceptuais da obra.

Em 1980, Helena Almeida descobre o negro. Da cumplicidade desta cor com a fotografia surgem grandes telas fotossensibilizadas. Em 1987, destacaram-se os Frisos, conjunto de 262 fotografias sobre papel que a artista expôs no CAMJAP.

Prossegue entretanto com os trabalhos de instalação e fotografia, mantendo a utilização da sua própria imagem como uma constante da obra.

© Helena Almeida. “Dentro de Mim”, 2000

© Helena Almeida. “Desenho”, 1999

© Helena Almeida. “Dentro de Mim”, 1998

Numa das fotografias da série Seduzir, a cor do sangue é a cor da pintura na planta de um dos pés deixada a descoberto por um sapato caído. Se a mão levanta um dos lados da saia num gesto coquette e se o salto alto dos sapatos o reforça, dois aspectos interrompem ou cerceiam esse propósito coreográfico: o corpo é um vulto negro, mais ou menos informe e sem cabeça, de forma a concentrar o nosso olhar na pele das pernas e dos pés, e nessa mancha inesperada que tinge de vermelho uma zona escondida do corpo, dando a pensar o que nela pode ser violência dissimulada, como em alguns jogos de sedução.

Por outro lado, se é a mão que tradicionalmente realiza a pintura, é o pé que a assume, neste trabalho, como agente passivo (suporte da pincelada), mas também activo do movimento, da surpresa, da cor e da tinta na fotografia a preto e branco e da perturbação metafórica.

© Helena Almeida. “Voar”, 2001

Engolir, secretar, integrar, esconder, escorrer, agir, habitar, localizar a pintura, a partir do corpo, nele e com ele – eis o programa de trabalho de uma vida.(…)

Maria Almeida Lima