Jorge Molder (1947-)

© Jorge Molder. Série “Ocultações”. 2008

Nascido em 1947 e formado em Filosofia, Jorge Molder é um artista que fotografa, servindo-se não só da fotografia, como do também do próprio corpo. O resultado é, podemos dizê-lo, uma ficção e não um auto-retrato, uma possível referência a um qualquer aspecto (o dia-a-dia, o cinema, a literatura…) que, mesmo que surja sequenciado, não busca necessariamente uma constituição em forma narrativa. A duplicidade surge também na construção/ recepção da fotografia: por um lado, a simplicidade no modo como o conceito transmitido é construído: um artista que se fotografa a si mesmo; por outro, a complexidade do sentido que as imagens pretendem veicular.
Jorge Molder realizou várias exposições nacionais e internacionais, individuais e colectivas. Actualmente reside e trabalha em Lisboa. (…)

As fotografias em que Jorge Molder usa o seu próprio corpo – ou o seu rosto – deixam de ser auto-retratos porque a figura que neles surge não resulta de nenhuma busca de autenticidade no interior do seu autor mas, pelo contrário, são figuras ficcionais. A característica mais marcante desta persistência na duplicidade é a sua não-resolução numa narrativa, apesar da permanência da ficção.

© Jorge Molder. Série “Comportamento Animal”. 2002

Comportamento Animal, é uma série de fotografias a preto e bran­co de Jorge Molder. O seu longínquo e obscuro assunto, aquele que não vemos, somos nós e a impossibilidade que, em determinados momentos, se nos coloca de nos figurar­mos a nós próprios. Trata-se, evidentemente, de uma espécie de medo original, medo das origens, que acontece quando temos de nos haver connosco mesmos na raiz daqui­lo que em nós é da ordem do humano e daquilo que em nós é da ordem do animal.

É um tema antigo, do princípio dos tempos, antes da história, um tempo sem narrativa, portanto. Um tempo em que provavelmente, não o saberemos nunca, a representação emerge como um imperativo, como uma pulsão inconsciente. Para além, ou aquém, das querelas e discussões em redor das pinturas parietais do palaeolítico (o propala do carácter mágico ou simbólico), daquilo que se convencionou chamar arte rupestre, algo sobreleva: o contraste entre a esquemática (tosca) e infantil (et pour cause, estamos na infância daquilo a que haveríamos de chamar de humanidade), representação do corpo humano e a proficiente representação das diferentes espécies animais. Fazendo a eco­nomia de todo o simbolismo que lhe quiseram atribuir, talvez remeter para a expressão de Bill Viola não seja desajustado. I don’t know what it is I am like. Lapidar – no duplo sentido da palavra, naquilo que ela tem de directo e na derivação de lápide – e, no entanto, terrivelmente justo. (…)

É de natureza similar o lugar enunciado pelas imagens que constituem a série Compor­tamento Animal. Poderíamos dizer que esse lugar é o fim e que a consciência do fim define o seu tempo. Para sermos mais rigorosos poderíamos acrescentar que se trata do exacto momento de clarividência em que o ser – o ser como pura potência, o ser enquanto transgressão, enquanto animal para a morte – capitula perante a situação pré-sacrificial. E esse momento de clarividência, esse limiar de consciência define a própria vida enquanto sentido de comunidade em torno da questão do destino, da ques­tão definitude, sobretudo da condição de limiar em que a própria existência se consti­tui. Acrescentaríamos, citando Bataille, a propósito da condição sacrificial e divina do animal: «A morte encerra um carácter transgressivo que é próprio da condição animal. Ela entra na profundidade do ser do animal; é, neste ritual sangrento, a revelação dessa profundidade».

Esta é a radical experiência estética que Jorge Molder propõe com a presente série.

Nuno Faria

© Jorge Molder. Série “Condição Humana”. 2005

© Jorge Molder. Série La Reine nous salue: o tamanho da memória, 2001

Não escrevo muito sobre as fotografias de Jorge Molder. Talvez porque obedeça à contrição do conceptualismo evidente, talvez porque saiba, como todos sabemos, que ele considera todos os discursos demasiado paralelos às suas intenções e formalização.

Claro que, apesar destas precauções e deste distanciamento há todo um corpo discursivo que se foi acumulando com o disparar da sua projecção a partir daquelas narrativas literárias que nos faziam identificar cenários que apenas a ficção inventara para nós, como o “Secret Agent”, “Zerlina” ou “Cabinet d’amateur”. Exposições que indiciavam as mitificações com que fazemos os nossos dias. Aí, todos os clichés literários ganhavam, (como o nº 10 de Baker Street esclarece sobre Sherlock Holmes), a positividade do real.

O tempo habituou-nos a que cada série sua não é apenas o que aparenta, embora também o seja. Cientes deste paradoxo amigável, foi-nos mais difícil lidar com as suas longuíssimas séries de auto-representação que entusiasmaram os pós-modernos e que nos enviavam para a apropriação do discurso sobre o corpo, sobre a expressão, sobre o gesto e a sua sequente banalização interpretativa. Com essas séries também aprendemos que não há aí uma foto a mais, uma foto mais imperfeita; são todas as necessárias, são todas fotograficamente perfeitas na sua glória do preto e branco extremado. E, mesmo quando há saturação do motivo, a saturação é o objectivo.

Mas cada um escolhe a sua imagem-fetiche, aquela que fica indelével na memória dos dias. A obsessão é da história pessoal e eu evoco sempre um drácula tenso e adormecido, muito branco e muito belo, jazendo num movimento de quase-erguer que fazia parte da sua série que inaugurou as instalações do Centro Português de Fotografia na Cadeia de Relação. Talvez porque gosto da serenidade que oculta a paixão e a misturei com as lendas vivas do final de século.

Esta imagem fotográfica da série La reine vous salue… foi retirada do pequeno catálogo que trouxe comigo, em 2001, do Museu de História Natural, em Lisboa. A exposição mostrava-se na Sala do Veado e já então considerei que o arrepio das imagens se casavam bem com o sortilégio do mistério da Festa do Veado dos ritos celtas, onde tudo não é o que parece pois tudo se passa em Avalon. No texto introdutório, fazendo uma citação, Molder evoca o movimento da memória quando “recordamos coisas que nunca nos aconteceram”. Coisas que nos desviam da realidade e nos saturam a memória. O que se tornou bem claro na minha própria impressão sobre as imagens. Considerei que esta imagem congregava em si toda a intenção da mostra, que envolvi no mistério da aliança do veado com a virgem eleita: a alucinação, as sombras, a indeterminação das formas, a incapacidade de reter a realidade, de a isolar dos medos e das suas roupagens. O que fica da memória que se não viveu, como a minha, que apenas a tenho da literatura é a ferida de uma impressão vaga. O autor das imagens mostra a moldagem inacabada de um rosto, desvirtuada nas suas formas pelas sombras que a escondem, pelos traços que a alteram. Há qualquer coisa de construção inacabada, de forma que só se definirá através da acção. É como uma suspensão do que poderá vir a ser um fenómeno.

Mas fica o olhar; e o olhar é uma impressão. Sentimo-lo, forte e inquietante, porque incompleto; em vão procuramos os olhos, há apenas uma imprecisa pupila, sombras negras e disformes. Mesmo no distanciamento da análise, o olhar persegue-nos e observa-nos. É como sempre diz Molder: um aqui é o que as fotografias nos podem dar e essa deve ser a sua sedução. E este olhar, que é apenas a indeterminação do olhar, devia ser o dos deuses severos que regulavam o lado esquerdo da vida, para sempre nos lembrar que estão aí, na memória do que se não viveu, mas que existe mais do tudo o que se pode ver. São eles afinal, que nos forneceram o fruto do conhecimento.

Maria do Carmo Serén in Arte Photographica

Site oficial do artista: http://www.jorgemolder.com/

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