Brígida Mendes (1977-)

© Brígida Mendes. Sem título, 2005

“Brígida Mendes, um nome a reter no panorama da fotografia nacional contemporânea…”

“A fotografia é o nosso exorcismo. A sociedade primitiva tinha as suas máscaras, a sociedade burguesa os seus espelhos e nós temos as nossas imagens.”

Jean Baudrillard. Por que a ilusão não se opõe à realidade.

A introdução da fotografia portuguesa contemporânea nos circuitos artísticos internacionais já é um facto. Cada vez são mais os artistas de qualidade que optam pela fotografia como forma de expressão e, ano pós ano, a sua afirmação como meio privilegiado para a criação e experimentação artísticas se torna mais evidente. Neste contexto de crescente visibilidade e maturidade da fotografia portuguesa sobressaem as propostas heterogéneas de uma jovem geração de artistas nascidos na década de 70. Destaca-se, especialmente, o trabalho de Brígida Mendes (Tomar, 1977), do qual se apresenta na Galeria Módulo um conjunto de sete fotografias realizadas entre 2005 e 2006, algumas das quais foram recentemente galardoadas com o Photographer’s Gallery Graduate Award – distinção concedida pela Photographer’s Gallery de Londres.

Licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e Master em Artes, especialidade Fotografia, pelo Royal College of Art, vive e trabalha entre Londres e Tomar. Desde 2001 que a artista expõe regularmente, sendo que foi em 2002, com a participação na colectiva “Epopteia”, quando se realizou a sua apresentação pública no âmbito galerístico português, precisamente com duas obras que não eram fotografia: uma escultura e uma instalação. Esta última representava um jogo de xadrez de grandes dimensões cujas peças reproduziam a cabeça e feições da mãe da autora – ponto de partida do uso e apropriação da imagem materna que prosseguiria nos trabalhos fotográficos desenvolvidos posteriormente, sempre a preto e branco.

Não deixa de chamar a atenção que o título da sua primeira exposição, em Lisboa, fosse “Epopteia”. Na Antiga Grécia, este termo fazia referência à última parte dos ritos sagrados ou Mistérios, na qual os iniciados alcançavam a visão da verdade, uma visão que comportava a manifestação dos deuses. Epopteia é assim entendida como revelação, clarividência e contemplação da verdade. Tratava-se, portanto, de uma experiência transcendente e transformadora para o ser humano. A obra de Brígida Mendes convoca, pois, todo um sistema de questões e práticas que confluem na ideia da experiência da arte: a percepção, o desdobramento, a teatralidade, a relação realidade/ficção-verdade/engano, o vínculo obra-público através do olhar e os próprios limites da fotografia enquanto arte.

© Brígida Mendes

Em 2003 teve lugar a sua primeira mostra individual, na qual apresentou uma série de dezanove fotografias onde a sua mãe – disfarçada com um vestido branco que remetia para o imaginário dos contos infantis – encenava vários momentos ou actividades de índole doméstica-rural. No ano seguinte, a artista deu a conhecer uma série de cinco fotografias, onde retomava a mãe como actriz principal das suas imagens encenadas. O fio condutor da narração fotográfica é a pessoal representação de alguns episódios ligados à iconografia da vida da Virgem: a Anunciação, o Nascimento de Jesus, a Adoração dos Reis Magos, a Fuga para o Egipto e a Coroação. O palco envolvente das cenas aparece coberto com um tecido branco com bolas pretas, inclusive as vestes da “Virgem” e das personagens que a acompanham repetem esse mesmo padrão de especial impacto visual. Os rostos mascarados das figuras reproduzem o modelo facial da protagonista, característica que enlaça com uma obra anterior, o jogo de xadrez.

Estamos perante retratos da mãe da artista? Diante de um desejo de aprofundar o papel que a mulher desempenhou ou desempenha na sociedade? Sugestões demasiado óbvias para uma obra tão sugestiva… Brígida Mendes, numa entrevista concedida ao escritor e crítico de arte americano John Slyce, confessava-se reticente em falar sobre a sua obra, evitando, desse modo, orientar o espectador para uma determinada leitura das suas imagens. A partir deste comentário pode-se afirmar que para a artista os factores percepção e reacção são imprescindíveis ao confrontar público e obra. O espectador poderá não ser bem sucedido na leitura das imagens, mas esse “fracasso” é em si mesmo outro tema de interesse. Efectivamente, na mesma entrevista fazia referência à ideia de fracasso num duplo sentido: o fracasso de quem contempla a obra de arte e o fracasso de quem a concebe, entendido como a não consecução da plena captação da imagem construída. Para Brígida Mendes o que interessa não é o resultado final, mas o exercício criativo em si. Este aspecto, o do processo de construção e encenação das imagens dispondo os elementos que deseja fotografar num determinado espaço, é fundamental para a compreensão da obra. A rigorosa planificação das cenas recupera os paradigmas pictóricos de composição e de utilização de luzes e sombras, bem como o recurso teatral do cenário e do disfarce, artifícios necessários no processo de construção de acções e personagens. Actor e personagem não são o mesmo. O actor encarna uma personagem, não é a personagem. Dito isto, fica respondida a primeira das perguntas efectuadas anteriormente. Não obstante, qual é a razão dessa insistência em servir-se da mesma pessoa? Frida Kahlo sentenciou o seguinte num determinado momento da sua vida: “Retrato-me a mim mesma porque sou o motivo que melhor conheço”. Talvez Brígida Mendes transforme a sua mãe num elemento cenográfico porque é o motivo que melhor conhece e que melhor a conhece. Por outro lado, esse exercício de representação reiterada de uma identidade supõe um meio auxiliar na expressão e materialização da sua própria interpretação da identidade da arte e da fotografia.
Em 2005, a artista continuou com experimentações em torno das potencialidades do disfarce e da teatralidade na fotografia. Teatralidade assumida como método de investigação artística, enquanto encenação que apenas ganha sentido com a inclusão do contemplador. O elemento humano, sem máscara, dirige sempre o seu olhar para o espectador. É a obra de arte que olha e devolve o olhar. É a experiência do olhar como parte integrante da experiência estética. Portanto, a teatralidade não se justifica sem a atenção do público, receptor da obra de arte. Esta percepção da encenação obriga, assim, a repensar o conceito de aparência, já que as fotografias de Brígida Mendes não deixam de ser narrativas fictícias, laboriosas fabulações da realidade.
Esta contraposição entre ficção e realidade alcança propósitos ilusionistas nas séries produzidas em 2005 e 2006, nas quais tenta ir além do confronto entre ambas categorias. Aquilo que se pretende não é fomentar a dúvida da veracidade da imagem fotográfica, mas fazer-nos duvidar do tipo de manipulação presente na obra, provocar a desconfiança na capacidade humana para discernir entre ilusão e realidade; ficcionar o artifício para captar uma certa realidade encenada e tudo o que esta pode ocultar. Perfeitos exemplos desta linha de pensamento são as suas fotografias-espelho, nas quais propõe um jogo de imagens simétricas, aparentemente desdobradas, focalizando a atenção na natureza artificial da representação. A simples duplicação ou reflexo de uma imagem condiciona a visão da mesma e, conscientes disso mesmo, são vários os artistas fotógrafos que recorrem à fotomontagem ou à manipulação digital com a clara intenção de alcançar o engano impecável, de esconder a união de imagens justapostas. Entre as obras significativas desta tendência da fotografia artística contemporânea invocadora da dimensão representativa e simbólica do espelho podem ser citadas Double Self-Portrait (1979) de Jeff Wall ou The Glance (1996) de Wendy McMurdo, que enlaçam directamente com a actual sensibilidade colectiva face à recriação do real e à relatividade do verosímil.
No que concerne a Brígida Mendes, nas suas imagens-espelho aproxima-se da montagem através da preparação minuciosa do cenário e da exacta disposição dos elementos presentes nele. Existe uma vontade de manipular essas imagens sem, no entanto, existir uma manipulação técnica, mas óptica. Quando se oferece a quase dupla e clónica imagem de uma mulher consegue-se reconhecer o desejo da artista em ludibriar e jogar com os sentidos do observador, pois este não se encontra perante o reflexo de um corpo, mas uma calculada encenação do seu equivalente gémeo. Uma observação atenta permite detectar as falhas e diferenças que denunciam a falta de simetria e atraiçoam o equívoco. Não obstante, enquanto isso, eis um dos grandes prazeres da arte contemporânea: subverter o conceito de ilusão, conseguir que o espectador assuma por enganoso o verdadeiro. Pensando bem, a definição da arte como ilusão remonta à Antiguidade Clássica, aos escritos de Platão sobre o carácter ilusório da pintura e aos de Plínio sobre Zeuxis e Parrásio. Em ambos textos o assunto central é a percepção da mentira como verdade e não o contrário. Os recentes trabalhos de Brígida Mendes apelam ao ardil do trompe-l’oleil e colocam a descoberto essa fronteira subtil entre ficção e realidade, entre público e obra, servindo-se da fotografia para aprofundar o modo cultural ocidental de olhar.

Fernando Montesinos

© Brígida Mendes

© Brígida Mendes

“My work shows a concern for the act of looking and overlooking; an interest in the inconclusiveness resulting from the process of looking at something unknown. The uncanny and the strange displace our recognition of objects and also lead to a suspension of perception. Therefore, we can create the illusions that represent the changing limits of the visible and the invisible. The ambiguity that lies on these representations is what has led me to produce my recent work.”

Brígida Mendes

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