Leal da Câmara (1876-1948); Caricaturista idealista

Tomás Júlio Leal da Câmara nasceu em Pangim, na Índia, em 1876 e morreu em Sintra, em 1948. Uma retrospectiva das suas obras inaugurou no Sintra Museu de Arte Moderna no dia 17 de Abril, em simultâneo com o World Press Cartoon Sintra 2010. Uma selecção do espólio da Casa Museu Leal da Câmara em Sintra, composta por pintura, desenho, caricaturas e capas de publicações, vai poder ser vista até final de Outubro nesse museu de Sintra.

© Leal da Câmara. 1899

© Leal da Câmara. “O Bacôco”. Revista “A Corja!”, 1898

© Leal da Câmara. “En el Retiro”, 1899

“Aliando o seu apurado “sentido” crítico com as suas aptidões nas artes, nomeadamente no desenho caricatural, que desenvolvera desde a juventude, de uma forma bem humorística fez críticas à sociedade e aos políticos de então, publicando jocosas caricaturas em revista e jornais da época, tais como, O Inferno, A Marselhesa, A Corja e O Diabo, sendo os mais visados o clero e a realeza, principalmente o Rei D. Carlos.

Estas habilidades valeram-lhe perseguições pelo poder político, obrigando-o a fugir para Madrid onde também põe em prática a sua arte, ridicularizando a nobreza e a sociedade vigente no país de “nuestros hermanos”. Encontrando-se insatisfeito e perseguido partiu para Paris, cidade luz e dos poetas, tendo-se aí deparado com uma república fervilhante de ideias novas e emoções, mais apropriada para o seu feitio irreverente.

Regressou a Portugal aquando da implantação da República, mas os ideais que encontrou e as diferenças culturais cada vez mais cavadas, não o convenceram. Voltou para Paris onde pôs em prática a sua arte de forma livre e espontânea, retratando a vida daquela sociedade em belas pinturas a óleo, aguarelas e tinta da china, colaborando no grande jornal de caricaturas L’Assiette au Beurre, sendo a sua arte reconhecida na Europa.

Quando rebentou a primeira grande guerra mundial retornou a Portugal, fixando-se em Leça da Palmeira, tendo exercido a profissão de professor de desenho na Escola Infante D. Henrique, no Porto, voltando depois a Lisboa onde continuou a leccionar e a pintar as suas famosas aguarelas, tendo também ilustrado os contos para crianças de Ana de Castro Osório. Em 1922 esteve no Brasil onde deixou também a sua marca artística.”

J.A.Melo. Blogue: segunda vida

© Leal da Câmara. “Doença Passageira…”. Revista “Miau!”, 1916

“Irreverente desde novo, republicano de alma e coração, o jovem Tomás cedo se opõe com verdadeiro espírito de cruzada ao “estado de coisas” vigente, isto é, à Monarquia. D. Carlos, como corolário do Regime, é a figura a abater. Durante anos a fio, Leal da Câmara não poupará o monarca e, obsessivamente, caricaturá-lo-á sem piedade nem tréguas. O Governo, a autoridade (Polícia) e a Igreja, como sustentáculos do poder, não serão, de modo idêntico, poupados nos seus ferozes e acutilantes trabalhos.

Sucedem-se as perseguições e a censura. Foge clandestinamente para Espanha e aí se exila entre 1898 e 1900. Colabora então em vários periódicos madrilenos, mas a Corte espanhola não lhe perdoa os terríficos “retratos” da Rainha Cristina. Nova fuga e novo exílio.

Paris, em 1900, no ano da Grande Exposição Universal, era o centro do mundo culto, uma metrópole moderna, verdadeiramente europeia, oposta em tudo à nossa “pacata e provinciana” velha Lisboa, que Aquilino descreve como “mole e patriarcal” e “catitinha e piegas”.

Aí convive com inúmeros artistas e intelectuais. Contam-se aos milhares as suas colaborações em periódicos franceses, espanhóis, belgas, ingleses e alemães. Expõe desenfreadamente. Conhece a internacionalização e a glória artísticas, para isso muito contribuindo as caricaturas que, por mais de dez anos, executa para a Revista L’Assiette au Beurre.

Em 1911, depois de implantada a República em Portugal, Leal não vê razões para permanecer em França. Regressa convicto de que “as coisas” mudaram de verdade. Desencantado, torna a Paris, em 1913, mas a grave e penosa conjuntura de guerra generalizada na Europa obriga-o a retornar à pátria, em 1915.

Envereda pela docência em 1919, no Porto e em Lisboa, ministrando várias disciplinas nas áreas do Desenho e das Artes Decorativas, tendo sido professor durante 27 anos. Contrai matrimónio em 1920 e muda-se para a Rinchoa uma década depois.

Com o correr célere dos anos e com a idade, as encomendas de trabalhos rareiam e a fotografia galga cada vez mais terreno na imprensa. Entretanto, participa em vários projectos locais, jubila-se no ensino em 1946, e recebe múltiplas homenagens durante os derradeiros anos de vida. Falece na sua casa em 21 de Julho de 1948 e encontra-se sepultado no Cemitério de Belas.”

Fonte: CMS

© Leal da Câmara. “A Declaração de Guerra da Áustria a Portugal”. Revista “Miau!”, 1916

Conferencia realizada a 25 de Outubro 2008 na Universidade de Granada, integrada no II Encuentro Internacional de Humoristas de Granada
Por: Osvaldo Macedo de Sousa

“…O que me foi pedido, no convite, foi uma palestra sobre algo que unisse, no estudo do humor, estes dois países irmãos na iberocidade. Em Portugal, publicaram-se trabalhos de alguns artistas espanhóis, mas nenhum viveu lá. Em Espanha, creio que nunca houve portugueses a colaborarem regularmente na imprensa noticiosa, ou a cá viver, excepto Leal da Câmara.
Este artista viveu Madrid durante dois anos. Amadureceu aqui como Homem e como Artista, seguindo depois para novos voos. Alguns contemporâneos dele garantem que foi uma presença importante e revolucionária que deixou marcas, influencias. Os investigadores actuais nem sequer referem o seu nome, a sua obra publicada por estas terras.
Resolvi pois vir cá falar sobre este artista, escolhendo como título “O Exílio de Leal da Câmara em Madrid”. Quando recebi o programa descobri que vinha conversar sobre o “Humor e Turismos Forçados”.
É verdade que o exílio é um turismo forçado e quando Leal da Câmara chegou a Madrid vinha em fuga forçada. Também é verdade que em Madrid ele não sobreviveu economicamente, apenas. Pelo contrário, procurou sorver a cultura, a riqueza pictórica dos seus museus, viver os ambientes tertulianos de discussão cultural, a boémia das irreverências, conhecer a sociedade espanhola, conhecer os seus tesouros, seus costumes, suas mulheres… Foi um verdadeiro turista a calcorrear as tertúlias, os teatros, os museus, as verbenas…

Quem é Leal da Câmara ? Tomás Júlio Leal da Câmara nasceu em Pangin – Nova Goa (Índia Portuguesa) a 30 de Novembro de 1876. Viveria até aos 6 anos na Índia, altura em que a família se muda para a metrópole, Lisboa. Pela actividade militar de seu pai, a sua vida sempre esteve moldada pelas saias da mãe, e esse poder ficou mais explícito a partir da morte do pai em serviço em Timor. Esta morte ao serviço de um regime que não lutava pelo seu império entre os grandes, que se acabrunhava perante a ignóbil Albion marcou profundamente a revolta do jovem Tomás Júlio.
Estávamos no início da década de noventa de oitocentos, em que os ânimos nacionalistas andavam exaltados contra a passividade, a subserviência dos governos perante os poderes externos. Em que a revolta germinava contra o imobilismo da nação, contra a usurpação dos dinheiros pela monarquia… A República surgia então como uma utopia alcançável, um projecto salvador para relançar o país no progresso, na soberania do seu império…
Dentro do núcleo das irreverências, das armas da oposição, a caricatura capitaneava na crítica jornalística, tendo como almirante da armada dos lápis litográficos, Raphael Bordallo Pinheiro, rodeado de muitos soldados, quase todos eles armados com o raphaelismo, como estilo dominante. A carreira de Raphael já tinha mais de duas décadas de lutas inglórias na imprensa, e o seu revolucionarismo naturalista dos anos 70, já se ia esmorecendo no cansaço, na divisão de seus interesses plásticos e de sobrevivência, transformando-se, cada vez mais, num academismo estético, e a sua sátira numa ironia cansada de criticar sempre os mesmos erros, as mesmas politicas, indiferentemente de que cara estivesse ao leme do governo.
Leal da Câmara é um estudante com o sangue na guelra, submetido a um poder materno que lhe pesa, por um lado, como uma opressão, por outro como um remorso de eterno agradecimento pelos sacrifícios feitos para lhe dar uma boa educação. Se o bom comportamento se mantém dentro do controle possível, para não sacrificar a mãe, o nervosismo da mão extravasa a revolta para a irreverência, e o seu traço rápido e nervoso está sempre engatilhado para disparar sobre quem merece, para rabiscar um papel, uma parede, uma pedra litográfica…
Em 1896 Celso Hermínio lança o seu “Berro” de revolta, um periódico que apesar de só ter publicado 18 nºs, será um marco de uma nova época satírica. A ironia raphaelista já não satisfazia os gostos dos jovens críticos ao regime, que desejavam avançar para a provocação directa, para a agressividade ideológica que incomodasse os passivos do regime e das oposições. Renasce então o espírito grotesco e panfletário que esteve na origem da sátira politica portuguesa, em tempos do cabralismo. Leal da Câmara inserir-se-á neste espírito como seu lema: “Comentar, causticando”.
Assim nesse ano de 1896, não aconteceu só o “Berro”. Leal da Câmara impor-se-á como uma promessa, como um novo valor satírico. Não nos referimos ao efémero “Inferno” de que ele foi director artístico, mas sim à sua colaboração em o “D. Quixote”, ao lado de Celso Hermínio e João Chagas. Este ultimo, jornalista e republicano activista, foi quem melhor explorou a irreverência destes dois artistas, para o combate que ele queria liderar.
Em 1897 colaborará em “Os Ridículos” e entra na nova aventura no Supl. Humorístico de “A Marselheza”, um projecto de João Chagas. Este último tinha no cabeçalho a gloriosa inscrição: o jornal “de maior circulação em todo o Governo Civil” (onde estava instalada a censura)
João Chagas, que é o verdadeiro mentor de “A Marselheza” escreverá: «Quem é pela monarquia está disposto a morrer com ela: quem é pela República, está disposto a morrer por ela. Cessou toda a propaganda. Entrou-se definitivamente numa fase de combate. Já não é de amigos, secretários ou aderentes que se precisa; é de soldados. Já não se reclamam palavras: reclamam-se armas…» E o lápis será uma grande arma. O batalhão de soldados, para além do jornalista e do desenhador, é composto pelos gráficos e pelos ardinas, todos eles vitimas da perseguição policial.
As apreensões serão constantes, por isso por vezes é necessário imprimir em vários locais, ser distribuído pelos ardinas mais rápidos para que o público consiga ler alguns exemplares. A policia, conhecida como formiga branca, ou fuinhas é pois um elemento vivo da vida do jornal, razão pela qual invade as suas páginas, instala-se no cabeçalho, nas margens… sendo um elemento decorativo de luta pela liberdade de expressão.
As instituições, os políticos decadentes de um rotativismo gasto e estagnado eram zurzidos pela crítica, mas num momento destes de guerrilha, o alvo tinha que ser mais personalizado, e para além dos governantes, o Rei perdeu o estatuto de Nação, para ser simplesmente um gordo esbanjador da riqueza do país, passou a ser um alvo directo da sátira panfletária. O Juiz Veiga não admitia tais insolências, proibindo, a certo momento, o acto de se caricaturar a família real. Nada melhor que uma interdição para aguçar o engenho e em consequência desta restrição nasceram algumas das melhoras caricaturas de Leal da Câmara. Como diria mais tarde Oliveira Salazar, «os verdadeiros pensadores, os que pensam, transpõem, sem ninguém dar por isso /…/ todas as limitações». Foi o que aconteceu – o chapéu à Mazantini, e uma série de objectos, como um barril… passaram a simbolizar o Sr. Proibido.
Apesar de toda a censura, apreensões, multas… “O Supl. Humorístico de A Marselheza”, passou a chamar-se simplesmente “Marselheza” o qual foi sobrevivendo até ao numero 57, morrendo por exaustão e por desinteresse do público já que, entretanto, em Maio de 1898, Leal da Câmara abandonou esta redacção fundando o seu próprio semanário, em parceria com o jornalista Gomes Leal. A batalha prossegue agora, não sob a bandeira do hino francês da liberdade, mas atacando directamente toda “A Corja” que governava o país, desde o Rei ao dirigentes partidários monárquicos, ministros… A primeira capa de A Corja era precisamente a caricatura do Rei feita com o retratos dos políticos que faziam a sua corte. Prossegue assim a sua batalha, com muita poesia revolucionária, lutando por ideais que raramente eram, totalmente, partilhados pelo grande público, antes por um pequeno grupo de idealistas.
A 16 de Dezembro de 1898 o nº17 é apreendido, acto que Câmara já pressentia, por isso tinha já um Suplemento preparado e lançado de imediato para denunciar mais este acto anti liberdade de expressão. Este acto foi a gota de água que os fuinhas esperavam para o caçarem e entregar ao Juiz Veiga. Uma nova Lei facilitava a prisão com julgamento sumário e o envio para a deportação. Felizmente que os republicanos tinham um sistema de defesa montado para se informarem dos acontecimentos antes deles se concretizarem, e assim tiveram tempo de o despachar para fora do país. Assim surge o primeiro exilado da caricatura em Portugal em finais do ano de 1898. Parte para um exílio de 11 anos.

Com a ajuda de cúmplices republicanos, foge para Madrid em Dezembro de 1898. No âmbito pessoal esta fuga para o exílio foi um desastre, mas no aspecto artístico foi uma sorte porque foi obrigado a visitar novos mundos, conhecer outros ambientes, beber de outras fontes estéticas levando-o para uma outra maturidade plástica, que nunca conheceria em terras lusas.”

Fonte: Humorgrafe

© Leal da Câmara. “Conheces-me?”. Revista “Miau!”, 1916

Leal da Câmara, born in India, studied at the Agronomie Institut. He gave up his studies, however, to defend his Republican ideals. These ideals were an important factor in his work. His strong and violent criticism directed against monarchy and the church in his work for magazines like A Marselhesa, Corja and O Diabo led to his suspension from these magazines. Leal da Câmara emigrated to Madrid in 1898, and in 1900 he moved to Paris, where he published in the caricatures newspaper L’Assiette au Beurre. After the abolition of the monarchy and the implantation of the Republic in Portugal, he returned to his native country. Disappointed by the cultural environment, he returned to Paris. In World War I, he went back to Portugal, where he started a teaching career.

Source: Lambiek.net