Estudo, Trabalho, Ética e Desenvolvimento; Uma reflexão

©Alfred Eisenstaedt/Google Life

Pois é… Aqui no Sala 17 não se fala só de Arte. A respeito do que se tem dito sobre os fracos resultados nos sistemas de ensino da maior parte dos países ocidentais e nas tentativas reformistas mais ou menos acertadas para corrigir o problema, várias causas foram apontadas, deixando – a meu ver – a causa principal de fora; A perca dos valores essenciais do trabalho, do esforço, sacrifício e do brio, a troco de uma procura de gratificação imediata. Estamos a falar de Ética e valores e a propósito do tema, o jornalista Thomas Friedman relata-nos um panorama sobre o caso específico dos Estados Unidos mas que se poderia aplicar sem esforço ao caso português…

Venho falar de dois artigos que li há pouco e que vão ao cerne dos actuais problemas dos EUA. O primeiro da “Newsweek”, tinha o título irónico “Somos o n.o 11!” A peça, de Michael Hirsh, rezava: “Serão os EUA hoje uma superpotência sem panache? Nem Obama é imune ao desalento. ”Não aceitamos ser o n.o 2!”, gritou o presidente numa manifestação. E o n.o 11? É esse o lugar dos EUA na lista da “Newsweek” dos 100 melhores países do mundo; não chegamos sequer ao top 10.”

A segunda peça, que podia intitular-se “Porque somos o n.o 11”, é do colunista de economia do “Washington Post” Robert Samuelson. Por que razão, pergunta, gastámos tanto na reforma educativa e temos tão pouco para apresentar em notas? Talvez, responde, isso não se deva só a termos maus professores, reitores e sindicatos.

“A grande causa do fracasso é quase inominável: menor motivação dos alunos”, escreve Samuelson. “São os alunos que têm de estudar. Se não estiverem motivados, até os professores mais competentes podem fracassar. A motivação pode ter muitas origens: curiosidade e ambição, expectativas dos pais, desejo de entrar numa boa faculdade, professores que incentivam ou intimidam, pressão do grupo. O pressuposto não explícito de muitas reformas educativas é que a culpa é sobretudo das escolas e dos professores.” Errado, diz. “Há cada vez mais alunos (nas aulas de Economia há-os de todas as raças) a não gostar de estudar, a não trabalhar arduamente e a não ter bons resultados. Numa sondagem de 2008 a professores de escolas públicas, 21% mencionam o absentismo estudantil e 29% a apatia dos alunos.”

Os argumentos de Samuelson têm muito de verdade e representam um microcosmos de um problema mais abrangente que não encarámos com honestidade: os nossos valores foram abalados com uma epidemia nacional de enriquecimento rápido e gratificação instantânea. Wall Street pode ter distribuído a droga, mas os nossos legisladores encorajaram o consumo. E muitos de nós andámos felizes a comprar crack sob a forma de dotcoms e créditos hipotecários.

Interrogue-se o leitor: o que tornou grande a nossa geração grandiosa? Em primeiro lugar, os problemas com que tinha de se confrontar foram enormes, impiedosos e incontornáveis: a Depressão, o nazismo e o comunismo soviético. Em segundo lugar, os dirigentes nunca tiveram medo de nos pedir sacrifícios. Em terceiro lugar, essa geração estava pronta a sacrificar-se e a unir-se para o bem do país. Em quarto lugar, como estava preparada para fazer coisas difíceis, conquistou a liderança global da única maneira possível: dizendo “sigam-me”.

Compare-se isso com a geração Baby Boom. Começa uma série de problemas cada vez mais graves: os EUA entram em declínio em termos educativos, competitivos e de infra-estruturas, a que vêm somar-se a petrodependência crescente e as alterações climáticas. Os dirigentes da nossa geração nunca se atrevem a pronunciar a palavra “sacrifício”. Todas as soluções têm de ser indolores. Que droga preferem? Um estímulo dos democratas ou um corte de impostos dos republicanos? Uma política energética nacional? Demasiado duro. Durante uma década enviámos as nossas melhores cabeças, não para Silicon Valley fazer circuitos integrados, mas para Wall Street fazer fichas de póquer, ao mesmo tempo que repetíamos a nós próprios que podíamos ter o sonho americano – uma casa – sem poupar ou investir, sem entrada e com um período de carência de dois anos.

Assim, muito do debate entre os dois partidos, nota David Rothkopf, professor do Carnegie Endowment, “assenta em sacudir a água do capote. É um concurso para ver quem consegue dar mais, numa altura em que se devia pedir mais ao povo dos EUA”.

Rothkopf e eu decidimos que só ficaríamos entusiasmados com a política dos EUA no dia em que o debate entre democratas e republicanos começasse por reconhecer que não se pode reduzir défices sem aumentar impostos e reduzir a despesa (e, só depois, debater quais e quando); reconhecesse que não conseguiremos competir se não exigirmos mais aos estudantes (e só depois debater se devemos aumentar a carga lectiva ou os anos curriculares); e reconhecesse que os pais maus educadores, que não lêem aos filhos pequenos e os mimam com videojogos, são tão responsáveis pelos maus resultados académicos como os maus professores (e, só depois, debater como resolver esse problema).

Quem o vai dizer à pessoas? A China e a Índia têm-se aproximado dos EUA, e não só devido à mão-de-obra mais barata e às taxas cambiais. Estão a apanhar-nos porque agora têm mercados livres como nós, sistemas educativos como o nosso, acesso a capital e a tecnologias como nós, mas, e sobretudo, valores como os que a nossa geração grandiosa subscrevia, ou seja, aceitar adiar a gratificação, investir no futuro, trabalhar mais e exigir mais aos filhos.

Numa aldeia global em que toda a gente tem acesso a tudo, os valores são mais importantes que nunca. Neste momento, os hindus e os confucianistas têm mais valores da chamada ética protestante que nós. Enquanto isso for verdade, seremos o n.o 11!

Thomas Friedman, Jornalista

Exclusivo i/The New York Times

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