“Livros de Artista”: O livro construído pela imagem.

© Ivo Moreira

“Livros de Artista” remete-nos para um espaço na internet dedicado ao conceito de criação de um livro/caderno, de conteúdo livre, baseado fundamentalmente em imagens dispostas e organizadas numa sequência coerente com o significado que se pretenda atribuir ao “livro”.

O site tem esta introdução ao tema:

“Este espaço nasce da iniciativa do professor José Tomás Féria, na sequência de uma proposta de trabalho transversal aos alunos de artes visuais do ensino secundário, constante da execução de um “Caderno de Imagens”: um caderno / livro feito só com imagens, obedecendo a uma sequência, não forçosamente narrativa.

Parte-se assim de uma situação em que existe à partida uma concepção (conceito), isto é, o caderno / livro é pensado como um todo. Para a execução deste objecto todos os meios, processos, recursos, suportes, são válidos.

Caderno de Imagens e Livro de Artista são a mesma coisa. No meio escolar designo-o pelo primeiro termo, por considerar que os alunos não são ainda artistas. Quando o forem, os Livros por eles executados, assim como todo o restante da sua produção, serão de Artista.

Mostram-se neste espaço registo de trabalhos de alunos, assim como de outros autores.

Pretende-se ainda que este sítio seja um espaço para quem queira acrescentar algo sobre Livros de Artista.

O que é um livro de artista?

Quanto a esta questão não há uma resposta consensual.

Considera-se, contudo, que o que distingue os livros de artista dos restantes é a utilização do livro como suporte de um projecto artístico específico, não restringido ao papel e à tinta, mas incorporando todos os tipos de materiais usados pelo artista.

Não são, pois, livros de reproduções de trabalhos de um artista, ou sobre um artista.

© São Trindade

Para alguns investigadores só é considerado livro de artista todo aquele do qual se possa fazer tiragens e/ou edições ilimitadas. Não consideram como livros de artista aqueles que são executados por processos artesanais – que implicam a sua irreprodutibilidade por meios mecânicos – quer sejam exemplares únicos, quer sejam edições de poucos exemplares.

Para estes autores – Anne Moeglin-Delcroix, Ulisses Carrión, Clive Phillpot, entre outros – os livros-objecto não são considerados como livros de artista; este tem de ser um livro “normal” como os outros livros escritos que conhecemos e que possa ser arrumado ou encontrado numa prateleira de uma qualquer biblioteca pública ou privada. Defendem o livro de artista mais como portador de um conteúdo – no qual o artista quer dizer alguma coisa não fora do livro nem sem ele – do que como objecto estético.

Mas os livros-objecto não se prendem a padrões de forma ou funcionalidade, extrapolam o conceito livro rompendo as fronteiras comummente atribuídas aos livros de leitura para se assumirem como objectos de arte. São objectos de percepção. Normalmente são obras raras, muitas vezes únicas – como é o caso dos livros de Kiefer, como os de muitos outros artistas – ou com tiragens bastante reduzidas. No livro-objecto a narrativa literária é substituída por uma narrativa plástica; a estrutura livro dá lugar à estrutura plástica, nascendo uma outra forma expressiva.

Stephen Bury, no seu livro The book as a work of art 1963-95, considera que livros de artista são livros, ou objectos com a aparência de livros, sobre cujo produto final o artista tem um elevado, ou total, grau de controle, e onde o livro é tido como uma obra de arte em si.

© António Correia

Origens do livro de artista

Embora em 1929 Marcel Duchamp tenha editado a “Caixa Verde” e em 1934 Max Ernst tenha editado três romances-colagens, assim como El Lissitsky tenha compilado séries de imagens sob a forma de livro na segunda década do séc. XX, estas obras não são, nem nunca foram, designadas por livros de artista, nem pelos autores nem pelos historiadores. Estas edições, assim como as de outros vanguardistas dos anos 1920-30 – resultantes das experiências futuristas, construtivistas, dadaístas – são consideradas casos isolados, uns parênteses na história do livro.

Em termos históricos são situações que ficaram sem verdadeiro futuro, não tendo servido de modelo, mesmo remoto, aos futuros criadores de livros de artista.

A noção de livro de artista só aparece a partir dos anos 1960, enquanto produção de obras visuais e plásticas autónomas, com uma intenção explícita de serem reproduzidas, e não tanto como uma experiência secundária em relação ao resto da produção artística.

E, consensualmente, há a considerar duas origens: a europeia, com Dieter Roth (n. 1930), e a norte-americana com Edward Ruscha (n. 1937).

Dieter Roth realizou mais de uma centena de livros, embora tivesse que esperar muitos anos antes de os poder publicar.

Ed Ruscha publicou 17 livros, tendo de início criado uma fórmula única cuja novidade foi imediatamente reconhecida. Como que estabeleceu umas leis do género. Há quem o considere como o “criador do paradigma dos livros de artista”.

O primeiro livro de Ruscha, Twentysix Gasoline Stations (1963), é composto “tão-somente” por uma série de 26 fotografias de estações de gasolina, sem texto, só com legendas a identificar a marca e a localização das referidas estações, como apontamento meramente documental. Ruscha refere que “Twentysix Gasoline Stations começou com um jogo de palavras. O título apareceu mesmo antes de ter pensado nas imagens. Eu gosto da palavragasoline e gosto da qualidade particular de twentysix. Vendo o livro, vê-se como a tipografia funciona bem. Trabalhei primeiro sobre isto tudo antes de tirar as fotografias. Não que eu tivesse uma mensagem importante acerca das fotografias ou da gasolina, ou de algo semelhante – tudo o que eu queria era fazer uma coisa que tivesse coerência (…) As fotografias que faço e utilizo não são de modo nenhum artísticas (…) Este livro não é feito para albergar uma colecção de fotografias de arte – são dados técnicos semelhantes à fotografia industrial. Para mim não são mais do que instantâneos”. Para além deste testemunho de Ruscha, que se enquadra com os pressupostos da arte pop com a qual o artista se identificava, o facto é que este livro, e os seguintes que ele publicou, se tornou numa obra genuína, única no seu género, acabando por servir de modelo a criações posteriores de outros artistas.

Ruscha publicou mais livros semelhantes, usando a fotografia como linguagem visual. Em todos eles é o artista que controla e faz tudo – tira as fotos, compõe-nas, pagina o livro, manda imprimir como quer – relegando o papel do editor para segundo plano.

© Francisco Vidal

A forma, no livro de artista, pertence à concepção do livro e começa com ele, na medida em que o tema do livro compreende a exigência da sua realização em livro. A apresentação de imagens em série nos livros de Ruscha não é um exercício de estética minimalista, nem um fim em si, antes a consequência da tomada de consciência pelo artista da natureza ela mesmo virtualmente serial de qualquer livro.

Ed Ruscha não se interessa por edições manuais ou artesanais e com tiragens de poucos exemplares; ele quer que o livro de artista seja como os outros livros, idênticos no formato, podendo-se misturar com os outros numa livraria, e com edições de tiragens ilimitadas, fazendo dele um objecto comercial e industrial como os outros.

Com o aparecimento da fotocópia, no final dos anos 60 do séc. XX, o artista tem ainda mais próximo de si a possibilidade de fazer tudo sem intermediários, sem mais algum agente que controle ou determine do teor e forma da obra.

Muitos artistas fundaram as suas próprias editoras. Judith Hoffberg funda em 1978 a revista californiana Umbrella que fazia recensão de livros de artista do mundo inteiro. E refere que “o livro de artista como contraproposta à galeria e ao museu permite uma democratização do sistema da arte, pois que os livros podem ser distribuídos pelo correio, pelas lojas de arte, pela amizade: os livros ocupam menos espaço, são portáteis, práticos e democráticos, e criam uma relação pessoal entre o consumidor e o artista, entre o proprietário e o criador”.

A produção e reprodução múltipla de um livro de artista faz com que “a arte pareça pura durante um momento e desligada do dinheiro. E como muita gente pode possuir o livro, ninguém é proprietário da arte” (John Baldessari). Na era da reprodutibilidade “em que nós conhecemos as obras sobretudo através das suas reproduções em livro, as nossas obras devem ser feitas unicamente para a reprodução” (J. Baldessari). O que pela reprodução e multiplicação poderia parecer afastara arte de sua essência, tornou-se afinal na sua aproximação.

Dieter Roth, numa atitude próxima da arte pop, apropria-se de vários tipos de publicações (jornais, revistas de banda desenhada) e manipula-as plasticamente (recorta, cola, inverte e subverte a ordem de leitura) de modo a criar um objecto livro de arte novo usando materiais do quotidiano aos quais toda a gente tem acesso.

Com uma produção e atitude diferente da de Ruscha encontra-se Anselm Kiefer (n. 1945). No livro The Books of Anselm Kiefer 1969-1990, que serviu de catálogo a uma grande exposição retrospectiva da produção dos seus livros de artista, realizada em 1991 no Museum of Modern Art de Nova Iorque, Götz Adriani refere o seguinte: “Os livros de Kiefer, cuja produção teve início nos finais dos anos 60 (séc. XX), começaram por lhe servir como meio para experimentar os seus temas, técnicas e materiais, que depois usava nas suas pinturas de grande formato. Com o continuar do trabalho os livros tornaram-se meios pictóricos autónomos. O desenvolvimento deste trabalho teve como peça principal a escultura Zweistromland (Terra entre dois rios), uma biblioteca enorme de livros feitos de chumbo”.

No entanto a finalidade das suas pinturas contrasta com a fluência das imagens dos livros – a grande picturalidade épica versus a cândida agilidade da narração: numa sequência de imagens somos levados a construir uma relação entre elas e consequentemente a fazer surgir uma narrativa.

“Os livros de Kiefer são peças únicas, sem edição, praticamente sem texto, onde as imagens são mais intimas, mais directas na expressão, mais sóbrias e expostas do que nas suas enormes pinturas. O artista utiliza os mais diversificados materiais para a sua realização: papéis finos e grossos, fotografia, linogravura, carimbos de batata, papel de parede, tela queimada, chumbo, óleo, cola, acrílico, tintas, carvão, areia, cinza, argila, entre outros, nunca se tornando objectos tridimensionais. Na verdade a variedade das técnicas raia o limite do possível. Os livros de chumbo, com as suas superfícies cheias de cor oxidada, pelo seu peso são menos manuseáveis e também pela sua indestrutibilidade dão a impressão de terem uma continuidade armazenada”, refere ainda Götz Adriani.

© Caseirão

A questão em torno dos livros de Kiefer nunca é pacífica, senão vejamos o que Peter Scheldahl considera a propósito de The Rhine (1990), um livro composto por linogravuras a preto e branco: o autor questiona se o citado livro é um livro, porquanto considera que os livros são objectos produzidos publicamente, isto é, publicados para consumo privado. The Rhine, assim como os outros livros de Kiefer, foi feito em privado, à mão, para vir a ser de uso público, ganhando assim os atributos de uma pintura. Conclui ser The Rhine um trabalho de arte visual, com afinidades à música e ao filme, e que é acerca do não-livro, oferecendo uma experiência teatral que não tem nada a ver com a leitura normal.

Stephen Bury, no seu livro já citado, refere que os artistas são rápidos na apropriação, manipulação e controle dos media existentes. E cita o exemplo de Pierre Garnier, que no início do séc. XVIII usou a recém inventada máquina de escrever (1719) para explorar as suas qualidades mecânicas ao nível da composição espacial dos seus poemas.

Ou lembremo-nos dos caligramas de Apollinaire: uns lêem-se de cima para baixo, outros ao contrário, outros da esquerda para a direita, enquanto que outros são determinados pelas convenções da arte, tais como quando um objecto é representado: pode ter um centro ou um limite que exige ser lido primeiro, enquanto outros são uma mistura de ambos.

Nesta senda podem-se enquadrar os livros gráficos, os quais jogando com o tamanho, forma e/ou cor das letras e palavras, jogam consequentemente com o tempo, com o seu tempo de leitura. Ou ainda os flip books, nos quais o leitor pode começar o livro onde quiser, lê-lo da frente para trás, ou de trás para a frente, e com a velocidade que quiser.

Outros artistas, como Keith Godard ou Dow Corning, davam instruções aos seus leitores acerca dos seus livros de artista, para os transformar, destruir, isto é, para manuseá-los de acordo com a intenção do autor.

Tudo isto são exemplos de novas presenças e identidades que os livros de artista trouxeram ao mundo dos livros. A história destes escreve-se todos os dias, bastando para isso… fazê-los.

© Francisco Feio

Cito ainda o meu colega Eduardo Salavisa que fez, e continua a fazer, um estudo sobre Diários Gráficos, o qual pode ser consultado no seu excelente site www.diariografico.com “O termo Livro de Artista é usado em várias circunstâncias. Para artistas plásticos, sobretudo para artistas conceptuais, pode ser uma ferramenta importante na experimentação e conceitualização de novas ideias. Para, por exemplo, Anselm Kiefer (1945. Alemanha) ou Antoni Tàpies (1925. Espanha), têm uma posição central na sua obra como cruzamento e lugar de encontro para outros trabalhos. Na década de 60 foi um fenómeno comum, como tomada de posição dos artistas sobre o mercado de arte, produzindo este tipo de objecto pouco comercial. Um livro sendo um objecto com algumas dificuldades de exposição também o é para ser comercializado. Mas pode ser considerado um objecto plástico, ao nível de qualquer outro, valendo pelo seu todo. Pode-se dizer, pelo menos para alguns artistas, que a grande diferença entre o Diário Gráfico e o Livro de Artista será a sua abertura ao exterior. Enquanto o primeiro é uma coisa íntima, feita para não ser mostrada, ou pelo menos reservada a poucos, o segundo vai chegar ao conhecimento dum círculo alargado, ou pelo original ou pela edição de alguns exemplares”.

José Tomás Féria

Visitar o site aqui: http://livrosdeartista.ibn-mucana.com/index.html

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