William Kentridge (1955-); Tudo é possível!

William Kentridge é um dos mais requisitados artistas da actualidade e, sem dúvida, o artista Sul-Africano mais conhecido de toda a sua (curta) história como nação independente.

O modo como realiza a fusão de várias técnicas, começando no desenho a carvão e grafite num registo algo convencional, explorando igualmente o vídeo, a pintura e a colagem, resulta numa simbiose original, por vezes desconcertante. As suas obras mais conhecidas são filmes realizados a partir de desenhos em que as formas são desenhadas e redesenhadas constantemente entre fotogramas (fotografias que, exibidas em sequência, resultam num filme).

© William Kentridge.  Felix in Exile (fotogramas). 1994

Um dos aspectos mais originais da obra de Kentridge é o facto de, de um modo geral, não planear o seu percurso nem o resultado final dos seus trabalhos. Não quer isto dizer que não exista planeamento no seu trabalho, antes pelo contrário.

O que se pode dizer é que WK prevê um espaço em que, numa determinada intenção de acção, muitos rumos diferentes se podem definir.  Tendo em linha de conta um plano mais ou menos vago para contar uma “história”, ele vai construindo passo a passo o seu trabalho, seguindo um percurso determinado por aquilo que o desenho dita no imediato, entre o registo e o apagar de partes ou da totalidade desse mesmo registo, com a finalidade de recriar movimento e tri-dimensionalidade.

Muitas imagens do trabalho de Kentridge são por isso aspectos efémeros de um percurso que, como mensagem simbólica, só faz sentido num contexto videográfico visionado ao longo do seu tempo específico de duração.

© William Kentridge. Stereoscope; Felix crying (fotograma). 1998

© William Kentridge. O regresso de Ulisses (fotograma). 1998

© William Kentridge. Tide Table (fotograma). 2003

WK utiliza magistralmente o desenho, que domina de uma forma que poderemos caracterizar de “clássica” para produzir obras finais que não são necessariamente “desenhos” mas antes instalações ou performances com base em registo vídeo. WK revelou-se um mestre na fusão destes vectores multimédia com a mais fundamental das artes visuais: o Desenho.

William Kentridge tem-se envolvido em vários projectos, tendo sempre neles abraçado uma atitude experimental e de constante procura de novos caminhos para a expressão do desenho, aliado ao vídeo, ao teatro e à performance multimédia. Tais foram os casos da mostra tripla “Viagem à Lua / Sete Fragmentos para Georges Méliés / O Dia pela Noite” (exibida em Portugal em 2005), “What Will Come (has already come)” / O Que Virá (já chegou) e, mais recentemente, ” Anything is Possible” / Nada é Possível.

© António Marques/ Sala 17

Viagem à Lua / Sete Fragmentos para Georges Méliés / O Dia pela Noite

A propósito da exposição do artista realizada em Lisboa (Viagem à Lua / Sete Fragmentos para Georges Méliés / O Dia pela Noite), no Museu do Chiado em 2005, escreve Pedro Lapa:

A obra de William Kentridge (Joanesburgo, 1955), uma das mais significantes da actualidade, oferece uma visão distintiva da história complexa da África do Sul e do legado do apartheid e, mais amplamente, sobre a natureza das emoções humanas e da memória. A exposição que o museu apresenta, no âmbito da edição de 2005 do Festival Europeu Temps d’Image em Lisboa, permite vislumbrar a magnitude de uma obra através de três dos seus mais recentes trabalhos: Sete Fragmentos para Georges Méliès, Viagem à Lua e O Dia pela Noite, todos eles de 2003.

Em Sete Fragmentos para Georges Méliès a fonte de inspiração de William Kentridge é o trabalho de Georges Méliès, nascido em Paris, em 1861, filho de um rico fabricante de sapatos. Depois de terminar os estudos de belas artes Méliès compra o teatro de Robert Houdin e começa a apresentar filmes, antes dele próprio começar a fazer e produzir os seus filmes.

Sobre Viagem à Lua William Kentridge escreve: “Um foguetão em forma de bala despenha-se na superfície da Lua, um charuto apagado numa face redonda. Quando vi o filme de Méliès pela primeira vez no princípio deste projecto, percebi que conheci esta imagem anos antes de ouvir falar de Méliès. Estava bastante avançado na realização dos fragmentos para Méliès. Tinha resistido a qualquer pressão narrativa, construindo a premissa da série – o que é que acontece quando o artista vagueia pelo estúdio. O que aconteceu foi a necessidade de fazer pelo menos um filme que se rendesse ao impulso narrativo.

O Dia pela Noite tem origem no exercício de filmar formigas no atelier do artista, enquanto trabalhava nos filmes de Méliès: “Nesta fase estava a trabalhar no filme Viagem à Lua, a penúltima e mais complicada das peças de Méliès, quando me ocorreu que podia fazer o negativo da imagem, e usar as formigas para algumas das sequências nocturnas da viagem.”

“Tal como os títulos o referem é aos primórdios do cinema, tempo de construção e descoberta fascinante de uma nova linguagem, de que Georges Méliès foi um pioneiro, que William Kentridge recorre para repensar o desenho e o implicar no movimento. As cenas que estas nove videoprojecções apresentam decorrem no atelier do artista, lugar da prática do desenho e de reorganização contínua do mundo. Os desenhos esboçados, apagados e redesenhados num palimpsesto em movimento são por isso construídos não só pelos gestos do corpo do artista mas também pela montagem fílmica que lhes retira qualquer possível estabilidade ou mesmo finalidade para devolver a inquietude que habita os passos do artista e o funde com o desenho de onde também emerge. No cruzamento do desenho com o cinema pode aquele ser reconduzido a um estado de contínuo nascimento. Este é um dos muitos aspectos que estes trabalhos de William Kentridge nos revelam e que o ensaio de Ruth Rosengarten analisa com profundas implicações, quer no reequacionamento do sentido do médium, quer no plano fenomenológico que pensa o inaparente.”

Pedro Lapa, curador da exposição “Viagem à Lua / Sete Fragmentos para Georges Méliés / O Dia pela Noite” – Museu do Chiado, Lisboa. 2005

What Will Come (has already come) / O Que Virá (já chegou)

©William Kentridge, What Will Come (has already come), 2007,  mesa de aço, espelho cilíndrico de aço, filme animado de 35mm transferido para vídeo (cortesia de Norton Museum of Art).


O vídeo acima mostra-nos uma das últimas vertentes do trabalho de WK; o desenho em superfícies planas para a obtenção de uma imagem correcta num cilindro espelhado. Este processo chama-se anamorfose.


Anything is Possible / Nada é Possível

Anything is Possible é o trabalho mais recente de WK e dá-nos uma visão intimista da sua obra e do seu processo criativo.

Anything Is Possible gives viewers an intimate look into the mind and creative process of William Kentridge, the South African artist whose acclaimed charcoal drawings, animations, video installations, shadow plays, mechanical puppets, tapestries, sculptures, live performance pieces, and operas have made him one of the most dynamic and exciting contemporary artists working today. With its rich historical references and undertones of political and social commentary, Kentridge’s work has earned him inclusion in Time magazine’s 2009 list of the 100 most influential people in the world.

This documentary features exclusive interviews with Kentridge as he works in his studio and discusses his artistic philosophy and techniques. In the film, Kentridge talks about how his personal history as a white South African of Jewish heritage has informed recurring themes in his work—including violent oppression, class struggle, and social and political hierarchies. Additionally, Kentridge discusses his experiments with “machines that tell you what it is to look” and how the very mechanism of vision is a metaphor for “the agency we have, whether we like it or not, to make sense of the world.” We see Kentridge in his studio as he creates animations, music, video, and projection pieces for his various projects, includingBreathe (2008); I am not me, the horse is not mine (2008); and the opera The Nose (2010), which premiered earlier this year at New York’s Metropolitan Opera to rave reviews.

With its playful bending of reality and observations on hierarchical systems, the world of The Nose provides an ideal vehicle for Kentridge. The absurdism, he explains in the documentary’s closing, “…is in fact an accurate and a productive way of understanding the world. Why should we be interested in a clearly impossible story? Because, as Gogol says, in fact the impossible is what happens all the time.”

Info/ Bio

William Kentridge was born in Johannesburg, South Africa in 1955. He attended the University of the Witwatersrand, Johannesburg (1973–76), Johannesburg Art Foundation (1976–78), and studied mime and theater at L’École Internationale de Théâtre Jacques Lecoq, Paris (1981–82). Having witnessed first-hand one of the twentieth century’s most contentious struggles—the dissolution of apartheid, Kentridge brings the ambiguity and subtlety of personal experience to public subjects most often framed in narrowly defined terms. Using film, drawing, sculpture, animation, and performance, he transmutes sobering political events into powerful poetic allegories. In a now-signature technique, he photographs his charcoal drawings and paper collages over time, recording scenes as they evolve.

Working without a script or storyboard, he plots out each animated film, preserving every addition and erasure. Aware of myriad ways in which we construct the world by looking, Kentridge uses stereoscopic viewers and creates optical illusions with anamorphic projection to extend his drawings-in-time into three dimensions. Kentridge has had major exhibitions at the San Francisco Museum of Modern Art (2009); Philadelphia Museum of Art (2008); Moderna Museet, Stockholm, (2007); and Metropolitan Museum of Art, New York (2004), among others. He has also participated in Prospect.1 New Orleans (2008); the Sydney Biennale (1996, 2008); and Documenta (1997, 2002). His opera and theater works, often produced in collaboration with Handspring Puppet Company, have appeared at Brooklyn Academy of Music (2007); Standard Bank National Arts Festival, Grahamstown, South Africa (1992, 1996, 1998); and Festival d’Avignon, France (1995, 1996). His production of Dmitri Shostakovich’s opera, The Nose, will premiere at the Metropolitan Opera, New York, in conjunction with a retrospective organized by the San Francisco Museum of Modern Art and Museum of Modern Art, New York (2010). William Kentridge lives and works in Johannesburg, South Africa.

Fonte/ Source: Art 21

Para uma apresentação interactiva do trabalho do artista, visita este site: