Casa Teatro Sintra; Nevoeiro

Nevoeiro de Eugene O’Neill é uma peça num só acto de 1914 e faz parte de uma série de peças do autor que, directa ou indirectamente, se inspiram no naufrágio do Titanic (1912).

A situação dos náufragos sobreviventes num bote salva-vidas, à deriva no mar alto, é especialmente apta para criar situações dilemáticas, do ponto de vista ético e humano, e suficientemente coesa, do ponto de vista da concentração do espaço, do tempo e da acção, para suscitar um desenvolvimento dramático clássico.

Por outro lado, é expectável que a situação de sobrevivência, acompanhada dos habituais desesperos, decisões in extremis, traições, arrependimentos, e surpresas, funcione como uma poderosa alegoria de situações quotidianas que nos são próximas.

Esta peça, contudo, oferece-nos muito mais do que uma situação limite de sobrevivência a começar pelos seus dois caracteres principais, o Homem de Negócios e o Poeta, e sobretudo, a meu ver, pela alegoria que decorre da consideração do título.
No teatro, como nesta peça e, como Platão facilmente aceitaria, na vida, encontramo-nos muitas vezes no nevoeiro e na espera angustiada que o nevoeiro se levante, nunca sendo certo que aquilo que finalmente vemos com nitidez, se é que vemos alguma coisa, é aquilo que realmente desejamos ver e está lá, aquilo que julgamos ver e não está lá ou outra coisa, entre as duas primeiras, que é apenas mais nevoeiro: uma nitidez que nos cega ou o lamento dos mortos.

É sobretudo esta última dimensão do texto de O’Neill que o Teatro da Garagem e a Companhia de teatro de Sintra/Chão de Oliva adoptam, na encenação de Carlos J. Pessoa.

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Sobre este espectáculo

O convite ao Teatro da Garagem para trabalharmos em co-produção era antigo, como de evocações antigas era feito o nome com que o Carlos baptizou o espectáculo ao entrar, e ao perscrutar a sala de representações da Casa de Teatro: chamar-se-ia “A Cisterna”.

O tempo foi esculpindo o desejo e os obstáculos ao desejo, até que o substantivo se fez substância, esta que agora, e depois de ultrapassadas vicissitudes várias ao longo do processo criativo, partilhamos com o público.

Para a Companhia de Teatro de Sintra/Chão de Oliva, o “Nevoeiro”a partir de Eugene O´Neill – que inserimos no Roteiro da Intemporalidade que programamos para 2009/2012 -, é mais uma experiência de comunhão com outros métodos de trabalho, outras sensibilidades, outras equipas. Nada que nos assuste ou faça vacilar, porque o que nos move é o escavar na nossa experiência, à procura de outras experiências.

Com mais esta montagem, vamos construindo essa ficção chamada sabedoria, mediada por um percurso polifónico para o qual não procuramos caução, e que nos dá a serenidade para sabermos ouver (ouvir + ver), experimentar, e, no fim, escolher o que nos possa revigorar profissional e artisticamente. Profissionalmente para solidificar os alicerces éticos em que assenta o nosso labor; artisticamente na procura do actual, intencionado no passado mas voltado para o futuro.

E actual ainda é para nós, por exemplo, a recusa da subalternização do actor, já que o tempo nos tem ensinado a encarar a edificação de um espectáculo como a sintaxe de vários elementos, onde o léxico matricial irradia da carne do actor.

João de Mello Alvim, Director Artístico da Compª de Teatro de Sintra/Chão de Oliva / Sintra, 9 Maio 2011

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