A experiência londrina da Inês Santos

© Inês Santos. Measuring my face (side) with masking tape. Then, connecting different spots.

É sempre muito útil conhecermos os percursos de vida de quem singra por outras paragens, em busca de realização profissional e conhecimento. A Inês Santos foi minha aluna no ano de 2009/2010 e desde cedo revelou a intenção de tentar prosseguir estudos fora de fronteiras. Eis o relato em primeira mão pela própria Inês. No final, estão alguns links que poderão ser úteis para quem quiser tentar um caminho semelhante.

Obrigado Inês e felicidades!

Objectivo: Londres

Inês Neto dos Santos

“No Verão de 2009, tive a fantástica oportunidade de passar duas semanas em Florença, a propósito de um curso de Desenho e Pintura. Tinha, durante o Inverno anterior, estudado Italiano durante três meses e esta ideia pareceu-me, na altura, a ocasião perfeita para praticar o meu italiano, unindo o meu gosto pela língua e pelas Artes. Assim, no mês de Agosto desse Verão, parti para Florença, munida de uma gigantesca mala, cheia de coisas que, afinal, se mostrariam completamente inúteis durante a minha estadia. Essas duas semanas que passei por minha conta (sem pais, sem qualquer pessoa que conhecesse ou que olhasse por mim!) foram umas das melhores que já passei. Fizeram-me perceber que há, de facto, um mundo lá fora, e esse é um mundo de possibilidades infinitas. Conheci uma espectacular variedade de pessoas e participei em conversas tão interessantes quanto estranhas, por vezes. Regressei a casa com a mente alargada, com vontade de repetir a experiência e com a sensação de que tinha juntado uma quantidade imensa de conhecimentos. Nesse mesmo Verão, iniciei a minha busca por uma Universidade fora de Portugal.

Passei tardes e tardes sentada frente ao computador, pesquisando, primeiramente, Universidades numa cidade em que tinha estado há pouco tempo e pela qual me apaixonei perdidamente: Nova Iorque. Nova Iorque (e mesmo os próprios Estados Unidos) tem algumas das melhores escolas superiores de Artes do Mundo. E porque não apontar o mais alto possível? Afinal tratava-se do meu futuro. Pensei, pesquisei e, finalmente, cheguei a três escolas finais, às quais me decidi candidatar – School of Visual Arts (em Manhattan, na cidade de Nova Iorque), Pratt Institute (em Brooklyn, também na cidade de Nova Iorque) e School of Design na Carnegie Mellon University (em Pittsburgh, Pensilvânia).

Os cinco meses que se seguiram foram os mais desgastantes e stressantes pelos quais já alguma vez passei. Pela altura em que decidi que queria, de facto, candidatar-me a estas faculdades, a época das candidaturas estava quase no fim. (Nos Estados Unidos, assim como no Reino Unido, as candidaturas para o Ensino Superior iniciam-se quase um ano antes do início do primeiro ano.) Tive de realizar um exame de Inglês, um exame SAT (realizado nos EUA no final do secundário, é um exame igual para todos os alunos, independentemente da área que querem seguir) que incluía matemática, disciplina que já não tinha faziam dois anos, dos quais me tive de pôr a par em duas semanas; três textos diferentes, um para cada faculdade, nos quais demonstrava o meu interesse pelas artes e explicava o porquê de querer entrar para aquela escola em particular e o porquê de a merecer; e preenchi um sem-número de formulários inacreditavelmente longos e detalhados.

Entretanto, comecei a procurar Universidades em Londres, no Reino Unido, como última hipótese. Depois de toda a azáfama pela qual passei nas candidaturas às faculdades americanas, candidatar-me ao ensino Inglês pareceu-me relativamente simples.

No final, e depois de esperar dois/três meses num estado de nervosismo diário, fui aceite em duas das faculdades americanas. Infelizmente, e contrariamente ao que esperava, não me foi oferecida nenhuma bolsa de estudos. Assim, tendo o ensino americano propinas escandalosamente elevadas, tive de recusar as duas vagas que me foram oferecidas (a custo, confesso!).

Felizmente, e um ou dois meses mais tarde, descobri que tinha sido aceite na faculdade de Londres à qual me tinha candidatado, o que me deixou radiante. Afinal, começar por Londres seria uma boa ideia. Seria um primeiro passo fora do “ninho” e estar mais perto de casa (em comparação com Nova Iorque, que está separada de Portugal pelo gigantesco Oceano Atlântico) mostrar-se-ia uma vantagem. Significa que posso visitar a minha família e os meus amigos mais vezes e que, em caso de emergência, posso cá ter os meus pais, ou voar até Lisboa, em apenas 3 horas.

Os primeiros tempos em Londres foram muito interessantes, mas também um pouco difíceis. Aos 18 anos, saí de casa, mudei de país e deixei a minha família e os meus amigos para trás para seguir um sonho, um desejo de um futuro melhor. Mudei-me para uma residência de estudantes, onde partilho um apartamento com outros 6 alunos da Universidade onde agora estudo Design Gráfico.

Chegar a Londres e aperceber-me de que começava então a viver numa cidade onde tudo está a meus pés foi uma sensação fantástica. A rede de transportes é a mais eficaz que já alguma vez vi. Posso estar muito facilmente num qualquer museu, galeria, loja, café onde me apeteça ir e isso parece-me não ter preço. Por outro lado, ambientar-me (o que, apesar de já terem passado quase sete meses, ainda não consegui fazer completamente) teve os seus altos e baixos. A cultura inglesa é muito diferente da nossa: as pessoas, em geral, são mais distantes, mais difíceis de “agarrar”. Penso que se deve ao facto de, na educação inglesa, se dar muita liberdade e se fomentar a independência logo desde cedo. Nós os portugueses somos, genericamente, mais calorosos logo quando conhecemos alguém novo. Isso tem as suas vantagens e desvantagens; não pretendo dizer que uns são melhores que outros, apenas que notei uma grande diferença no contacto entre as pessoas.

©Inês Santos. On the bus, on my way to the Hunterian Museum, London.

Viver sozinha e mudar-me para um novo país ajudou-me a crescer, a desenvolver o meu sentido de responsabilidade. Fez-me rever as minhas prioridades, a ter uma visão mais apurada do que me rodeia.

A independência e liberdade fomentadas na educação inglesa são, claro, muito óbvias no método de ensino dos cursos superiores. Tenho tido a oportunidade de comparar o ensino superior nas Artes em Portugal com o ensino na minha faculdade e esta independência tem-se mostrado uma grande vantagem: nos nossos projectos, é-nos dada uma enorme liberdade para escolhermos o suporte, o método e o tipo de abordagem com que queremos trabalhar. É-nos dado um tema, alguns requisitos que têm de ser preenchidos, mas, a partir daí, estamos por nossa conta. Isto não quer dizer que não tenhamos o apoio dos professores quando precisamos de ajuda ou temos dúvidas (temos programados dois dias por semana com os professores, mas podemos contactá-los quando precisarmos, fora desse horário), mas, ao contrário do que me tenho apercebido em relação ao ensino português, não nos é requerido que expliquemos cada passo do nosso projecto à medida que o vamos fazendo, quase “pedindo autorização” para continuar. Obviamente, cada projecto precisa de ser coerente e “ter razão de ser” (não pode simplesmente ser algo aleatório, sem fundamento), mas é-nos dada uma visão do que será o mundo profissional lá fora, onde não teremos professores que nos acompanhem a cada passo de cada projecto que nos seja encomendado.

© Inês Santos. Noticing what’s yellow walking down the street.

Esta independência permite-nos crescer como designers, como artistas, como pessoas. Aprendi que é de extrema importância experimentar, dar uma hipótese a cada ideia que temos, mesmo soando absurda. A experiência pode resultar em algo útil ou algo completamente inútil, mas é algo de onde retiramos sempre algum conhecimento. Tal só pode ser benéfico. A ideia de que tudo o que produzidos tem de estar acabado, perfeito, organizado e limpo só nos prende, não permitindo que as ideias surjam com fluidez. Uma das coisas que tenho vindo a aprender nestes últimos meses é que é necessário deixarmo-nos de preciosismos. É preciso estar à vontade o suficiente connosco próprios e com o nosso trabalho para não termos medo de o “estragar”, de fazer experiências que corram mal ou de ter uma página no nosso caderno de registos/diário gráfico que não seja particularmente atraente. Uma vez que cheguemos lá, parece-me, estamos muito mais perto de atingir o nosso potencial máximo como criadores. É um processo difícil, ainda não lá consegui chegar, mas, passo a passo, é possível.

Lembro-me de, ainda antes de iniciar o 10º ano, pensar que ir para o estrangeiro era trair o meu pais. Era desistir de Portugal, da minha pátria. À medida que cresci e especialmente depois de regressar de Florença, vi as coisas de outro modo: agora, era a ideia de ficar em Portugal que me incomodava. Há um mundo para além da nossa fronteira, e é-nos cada vez mais fácil e acessível alcançá-lo. E, se é cada vez mais fácil, porque não tentar? Ter a possibilidade de viver noutro país faz-nos crescer, desenvolver a nossa capacidade de tomar decisões, o nosso sentido de responsabilidade e a nossa independência. É verdade que o nosso país está numa situação complicada, mas não gosto de dizer que “sair do país é o melhor a fazer”. Nunca deixarei de ser portuguesa, e continuo a ter orgulho da minha nacionalidade. É uma qualidade que acredito poder ser uma vantagem no trabalho que farei no futuro.

Na área da Artes, conhecer o mundo que nos rodeia é de máxima importância. Conhece-lo como é, como foi, para podermos desenvolver a nossa ideia de como será no futuro. E conhecê-lo passa por desafiarmo-nos a nós próprios, conhecer coisas novas, correr riscos. Ir estudar para o estrangeiro é um grande passo. Exige um grande esforço, e nem sempre é possível, já que se torna numa experiência que exige muitos gastos, para além de, por vezes, parecer assustador mudar de casa para um sítio que não conhecemos. Mas algo pelo qual vale a pena fazer um sacrifício. É algo que nos faz crescer muito mais do que poderíamos imaginar, que nos faz aprender o triplo daquilo que estaríamos à espera. É uma oportunidade irrecusável e, desse modo, quando apresentada, deve ser agarrada com toda a força. Não é algo que simplesmente “caia do céu” no nosso colo: é preciso fazê-la acontecer. Mas a verdade é que todo o esforço que seja preciso, todos os sacrifícios feitos, valem muito a pena.”

© Inês Santos. 4 days of self-portraits, each morning and each evening. Experimenting with my face and how it changes during the day.

O site da minha Universidade (Unversity of the Arts London), que inclui seis faculdades diferentes, todas baseadas em Londres: http://www.arts.ac.uk/
O site da minha faculdade (London College of Communication): http://www.lcc.arts.ac.uk/
A página do meu curso (Graphic and Media Design): http://www.lcc.arts.ac.uk/courses/undergraduate/ba_graphic_media_design_degree.htm (o meu curso mudou após eu ter entrado e já não inclui a vertente de Ilustração, para a qual foi criada um curso específico, aqui: http://www.lcc.arts.ac.uk/courses/undergraduate/ba_illustration.htm)
O site através do qual se fazem as candidaturas a quase todas as Universidades inglesas: http://www.ucas.com/
O site oficial do exame de inglês internacional, TOEFL, obrigatório na entrada para as Universidades inglesas e americanas: http://www.ets.org/toefl/ (como alternativa, mas apenas para o ensino inglês, pode realizar-se o exame iELTS, aqui: http://www.ielts.org/default.aspx
E finalmente, a minha página no Flickr, que é muito recente e onde apenas ainda publiquei o meu último projecto (de Ilustração), se estiverem interessados: http://www.flickr.com/photos/inesns/