Casa de Teatro de Sintra; “E a cabeça tem de ficar?”

SINOPSE

1 – Com este espectáculo* a Companhia de Teatro de Sintra encerra o (segundo) Roteiro da Intemporalidade, iniciado em 2005 com Strindberg e que continuou até esta 66ª produção, com Ibsen, Tchekov, Jean Cocteau, Maeterlinck, Eugene O´Neil e Pirandello. Pretendemos assim enriquecer o nosso reportório, com autores incontornáveis da dramaturgia ocidental, numa abordagem que não se pretende cronológica mas elucidativa de uma época (desde finais do séc. XIX até à década de 60 do séc. XX) rasgada por convulsões sociais e políticas e pela multiplicação de movimentos artísticos.

Essencialmente,   o procurar de fios condutores e a vontade de, na encruzilhada do mundo em que vivemos, questionar injunções dentro desta área artística através da (re)visitação dos clássicos, alguns deles poucas vezes representados, assim como estimular  a dimensão estética e intemporal que emana dos mesmos. Mas também, o continuar a questionar o nosso percurso como pessoas e criadores, lutando contra a inércia da “funcionalização criativa” – que, não raro, resvala e revela mentalidades “de curto alcance”, que nada têm a ver com os objectivos humanistas da arte e da cultura – e ainda, valorizar o prazer de ouvir, ler e pensar, favorecendo não só a criação, como a consolidação de públicos sensíveis e informados, neste tempo em que os governantes nos querem esmagar com o discurso esotérico, “único e infalível”, do economismo, economismo este que, como escreve Craig Calhoun, “é uma forma de etnocentrismo”.

2 – Ao montarmos “E a cabeça tem de ficar? ”, colocamo-nos contra a corrente de massificação acéfala, escolhemos pensar com um autor que, aparentemente, desconversa, complica, não diz nem quer dizer nada. Ao escolhemos Karl Valentin, escolhemos o olhar sobre o desconcerto do mundo e do país, este, onde temos vivido acima das nossas possibilidades – pelo menos é o que nos dizem todos os dias. Ao escolhermos este autor, fazemos uma opção ética: entre a renúncia ou o riso alarve, escolhemos o rir de nós, e convidamos o público ao mesmo exercício. Porque saber rir de nós, vai além dos lábios e da garganta. Desce o diafragma e chega à alma, essa que é o nosso alicerce e a nossa esperança contra a desilusão e o imobilismo.

3 – Quatro foram os desafios que desde o início colocámos como prioritários na montagem desta peça. O primeiro passava por propor aos actores o mínimo envolvimento psicológico na representação, antes procurando o jogo rítmico da fonética dos textos e (da perplexidade) das situações. Um segundo desafio centrava-se na exploração das características corporais de cada um dos dois actores em palco, sem cair na imitação do dueto Karl Valentin-Liesl Karlstadt. Os outros dois desafios provinham do método de trabalho usado no anterior espectáculo da Companhia – e ainda num outro, do grupo de marionetas do Chão de Oliva, o “Fio d´Azeite” – onde participou, no essencial, a mesma equipa, e que tinha a ver com a utilização de praticamente um único objecto em cena – a perseguição do objecto polimorfo, neste caso uma bicicleta; por fim, a articulação, não narrativa, dos vários quadros, a procura do todo através dos fluídos de cena: luz, espaço (s),música, movimento, etc.

4 – É conhecida a admiração e a influência que Karl Valentin teve sobre Brecht, que sobre aquele escreveu: “ (…) Quando este homem, uma das figuras mais penetrantes do seu tempo, apresenta aos simples, em carne e osso, as relações entre a placidez, parvoíce e alegria de viver, o velho animal escuta no mais íntimo de si próprio”.

Porque a cabeça tem de ficar, para pensar e resistir, depois de Karl Valentin, a Companhia de Teatro de Sintra vai fazer, em 2013, Bertold Brecht, abrindo assim o Terceiro Roteiro da Intemporalidade, que abrangerá dramaturgos fundamentais entre as décadas de 20 e 40, do século XX, ou seja entre guerras.

João de Mello Alvim

(Sintra, Maio de 2012)

*Antes do corte de 38%, decretado unilateralmente pela Direcção Geral das Artes/Secretaria de Estado da Cultura, sobre um protocolo assinado em 2009 entre esta Direcção Geral e o Chão de Oliva – corte extensivo a todas as estruturas quadrienais e bianuais -, o espectáculo previsto era uma co-produção com o Teatro da Mala Voadora

Karl Valentin

De seu nome Valentin Ludwig Fey. Nasceu em Munique a 4 de Junho de 1882, filho de família modesta. Depois de alguns anos de trabalho como marceneiro, começa uma carreira de cantor popular nas cervejarias de Munique. Chega a organizar, sem êxito, uma digressão com uma grande orquestra de vinte instrumentos que ele acciona sozinho, graças a um mecanismo que inventou. É em 1907 que conhece, com O Aquário, o seu primeiro grande êxito. E passa a assinar Karl Valentin. Será em 1908, quando trabalha como actor em Frankfurter Hof, que conhece Liesl Karlstad que se viria a tornar a sua parceira em palco, durante cerca de trinta anos. Bertolt Brecht frequenta os seus espectáculos, toca na sua orquestra, reconhece a sua influência. Quando, por razões de saúde, Liesl Karlstad abandona a parceria em 1935, Valentin não encontra substituta à altura. A 1 de Abril de 1937, Samuel Beckett assiste ao seu espectáculo em Munique e comenta “Rimos tristemente.” Em 1942, Valentin retira-se para a casinha que tem em Plannegg, onde trabalha como amolador. Depois da guerra, tenta um regresso, com Liesl Karlstadt – mas passam desapercebidos. Quase esquecido, Karl Valentin morre de pneumonia a 9 de Fevereiro de 1948. O seu teatro é redescoberto nos anos 70, a partir das traduções que foram feitas em França, por Jean-Jourdheuil e Jean-Louis Besson (Éditions Théâtrales), tendo desde então sido reconhecido como um dos maiores autores cómicos de sempre.

Fonte: Artistas Unidos

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