Vanguardas nas Artes Visuais Portuguesas (I)

O termo “Vanguarda” – por sinal o tema apontado para o exame nacional de Desenho A (12ºano) para o ano lectivo de 2016/2017 – tem um significado algo alargado e pode aplicar-se tanto às artes visuais como à literatura ou às artes performativas. Neste contexto, torna-se pertinente uma maior familiarização com o termo e o seu significado e quais os artistas e correntes envolvidas, sobretudo no âmbito da vida cultural e artística nacional…

VANGUARDA (Extracto do texto de Osvaldo Silvestre no site “Modernismo“)

Proveniente do léxico militar, no qual significava um pequeno grupo de soldados altamente treinados que ia abrindo o caminho ao exército, em francês, e de acordo com Matei Calinescu, o termo vanguarda desenvolveu um sentido figurativo pelo menos desde o Renascimento (…)

 (… )No campo artístico, usa-se para qualificar um grupo de artistas cujas obras e intervenções se distinguem pelo seu cunho experimental, inovador e transgressivo. Embora certas práticas de vanguarda sejam já reconhecíveis na literatura e nas artes do século XIX, é com o século XX, e no contexto do modernismo entendido como um período literário ou artístico, que as manifestações da vanguarda se tornam sistemáticas e sistémicas, a ponto de um importante teorizador da vanguarda, o alemão Peter Bürger, ter proposto que se reserve para as vanguardas do início do século XX a designação de «vanguardas históricas» (Futurismo, Dada, Surrealismo) e, para as que surgem no pós-Segunda Guerra, a de «neo-vanguardas» (Expressionismo Abstracto, Arte Pop, Fluxus, etc.).

(…) No âmbito periodológico do Modernismo, a vanguarda em Portugal ocorre nos textos de Fernando Pessoa assinados por Álvaro de Campos – as duas grandes Odes, a Marítima e aTriunfal, o Ultimatum –, por Sá-Carneiro (Manucure) e Almada (os manifestos, a Cena do Ódio), na revista Portugal Futurista, logo apreendida pela polícia em 1917, e na sessão no Teatro República, também em 1917. Trata-se de ocorrências de um vanguardismo claramente inspirado pelo futurismo italiano, mas trata-se sobretudo de um espectáculo de um só homem: Almada. Desse ponto de vista, a sessão no Teatro República é inteiramente esclarecedora: Almada dando espectáculo no seu fato-macaco, acompanhado por Santa-Rita, Pessoa assistindo discretamente na plateia. Desta fase heróica da vanguarda portuguesa, convirá reter dois dados essenciais: em primeiro lugar, o facto assinalável de, por um raro momento na sequência moderna iniciada pelo romantismo, a literatura e as artes portuguesas terem estado perfeitamente sintonizadas com a eclosão vanguardista europeia. Em segundo lugar, a clivagem que, de forma mais ou menos nítida, se vai produzindo entre obras e práticas vanguardistas, quase todas atribuíveis a Almada Negreiros — performance pública, de que o grande momento será a sessão no teatro República em 1917, prática continuada do manifesto, antagonismo e agonismo em relação ao público, ao mercado e à arte instituída —, e obras e práticas muito reticentes em relação a qualquer tentativa de contestação do estatuto autonómico da arte, como é sobretudo notório em Pessoa, pese embora a retórica futurista reconhecível em poemas e textos de intervenção do seu heterónimo «modernólatra» Álvaro de Campos (…)

Osvaldo Silvestre

ALMADA NEGREIROS, AMADEO DE SOUZA-CARDOZO e SANTA-RITA PINTOR (Extracto do texto de Bernardo Pinto de Almeida no site “Modernismo

Deveríamos, em abertura, começar por lembrar a definição que, em 1965, Almada deu do Modernismo: «o encontro entre as letras e a pintura». Foi o seu caso, com mais dois nomes paradigmáticos, Santa Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso. No princípio dos anos 10, Guilherme de Santa Rita, que em breve mudaria o nome para Santa Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro, Amadeo ou José Pacheco, todos tendo vivido por mais ou menos tempo em Paris, interessam-se pelo Cubismo, Futurismo e as formas mais importantes da Vanguarda, trazendo depois para Portugal informações e experiências. A importância dessa associação vê-se desde logo no fundador gesto plástico do Orpheu 2 e desde início no 2 da capa, e repercute-se, ainda, na presença programada das reproduções interseccionistas de Santa Rita Pintor no corpo da revista.

Em 1916, Almada Negreiros e Santa Rita Pintor fundavam o Comité Futurista de Lisboa. O Portugal Futurista em 1917 incluiria dois artigos sobre Santa Rita Pintor, que aparece como figura central desse Futurismo português, não sem razão, porque ele mesmo traduzira o Manifesto de Marinetti que publicou no jornal O Açoriano Oriental pouco depois, constituindo este um dos primeiros sinais de recepção do Futurismo em plano Europeu. O primeiro desses dois textos aparece logo destacado a abrir o número, e vem ilustrado com uma fotografia sua de página inteira a que voltaremos.

Mas dois anos depois, em 1918, morre Santa Rita Pintor (que pede ao irmão para queimar os seus quadros). E nessa perda se perdeu com ele quase todo o pouco Futurismo que realmente tivemos nas artes, ficando a Pessoa o principal da sua definição para a literatura e, mais lateralmente, para Almada, cujo génio juvenil o Futurismo entusiasmava ainda por esses anos, sobretudo pelo sentido de provocação mais do que por um programa consequente como seria, ao que deixou, o de Santa Rita cujo gesto antecipava já um qualquer bizarro furor dadaísta, mesmo se este ainda não se fizera como tal no Cabaret Voltaire em Zurich.

O Futurismo português, que assim compreenderemos como mais mítico ou lendário do que realizado em obras relevantes no campo da arte,  ao menos que tenham ficado (já que as de Santa Rita desapareceram, bem como muitas de Amadeo, ao que consta destruídas por familiares) começara “em espírito” logo após o escandaloso sucesso suscitado em Paris pelo grupo de Marinetti, com a edição do seu Manifesto no Figaro, em 1909, mas essa nova sensibilidade não encontrou repercussão vísivel em Portugal, se exceptuarmos o interesse e atenção que, logo em 1912, mereceu ao então jovem bolseiro Santa Rita Pintor, frequentador assíduo das conferências do futurista italiano em Paris que, em 1914, após ter contactado com o agitador cultural italiano, se propôs traduzir as suas obras para português, enquanto desenvolvia uma obra plástica em que predominava a influência das formas futuristas à mistura com alguns ecos de raíz cubista (…)

Bernardo Pinto de Almeida

Para um panorama dos artistas da vanguarda artística portuguesa: MNAC

© António Marques/ Sala17 – 2016/2017

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