Vanguardas nas Artes Visuais Portuguesas (II)

Extracto do texto de Nuno Chuva Vasco; “Os últimos 50 anos da pintura e escultura portuguesa”

(…) Até ao final da década de 40 coexistem, assim três tendências que se afirmam com enorme força: o neo-realismo, o surrealismo, e o abstraccionismo geométrico. A intelectualidade portuguesa, que estava dividida – de um lado tínhamos a existência de uma clandestinidade, (…) por outro, um grupo de pessoas parcialmente envolvidas no regime – foi fortemente influenciada pela enorme evolução da cultura do mundo ocidental, sobretudo após o fim da segunda Grande Guerra. À demissão de António Ferro, seguiu-se no início da década de 50 uma deficiente promoção da arte portuguesa no estrangeiro. Havia um desinteresse generalizado pelas artes, e as participações nacionais em bienais estrangeiras.

(…) Assiste-se, pois, a uma separação entre o gosto oficial e a vanguarda artística. O que de melhor se fazia culturalmente não tinha, em consequência, a chancela do governo, mas sim a dos artistas e a dos críticos de entre os quais se destaca José Augusto França. As encomendas públicas, e políticas eram maioritariamente dirigidas à escultura e à tapeçaria, e reportavam-se essencialmente a temáticas patrióticas, tais como o império ultramarino, e os heróis nacionais. Jorge Vieira vai iniciar aquilo que caracterizou a escultura deste período. Ele cria uma sinergia entre as várias vertentes que nos anos 40 estiveram em vanguarda, ou seja, ele articula associações entre a abstracção com alguma dependência surrealista, aflorando em alguns momentos o neorealismo. Até 1957 Júlio Pomar desenvolve o neo-realismo, ano em que dá por encerrado este movimento, realizando o seu último trabalho paradigmático – “Maria da Fonte”. Também Augusto Gomes [1910-1957] se aproximou na década de 50 do neo-realismo, preconizando nas suas obras uma geometrização simplificada das formas, e uma hermetização da cor. Em clara oposição a Augusto Gomes, surge Luís Dourdil [1914- 1989] com fluidez das figuras, e transparência da cor. Influenciado pela obra dos nacionais Lanhas e Nadir Afonso, e pelo internacional Mondrian [1872-1944], Joaquim Rodrigo [1912-1997] interessa-se pelo neoplasticismo, participando em 1954 no “1º salão de Arte Abstracta” na Galeria de Março7 . A sua pintura baseava-se nas teorias neoplasticistas, assente pois, na pureza das formas e das cores, subjugadas a regras de construção. Esta década não deixou de ter um franco predomínio de obras surrealistas e, por isso, Fernando de Azevedo e Marcelino Vespeira8 , juntamente com Fernando Lemos [1926- ] realizam na Casa Jalco uma exposição nesta corrente, atestando a existência do movimento. Lemos, explora os limites da fotografia, imprimindo-lhe um cariz surrealista, através da múltipla sensibilização do papel fotográfico por meio de vários negativos. (…)

As décadas de 40 e 50 foram decisivas para o rumo das artes nos anos 60. A Pop Art era o movimento que ao nível mundial se havia afirmado e influenciou grandemente o panorama nacional. Este período proporciona grandes “aberturas” à arte nacional. Verifica-se uma enorme quantidade de artistas que emigram para a Europa; dá-se a abertura de novas galerias e é quando a SNBA começa a ser permeável, permitindo exposições de alguns artistas modernos que até então encontravam para si as portas fechadas. Em Lourdes Castro, além das obras ligadas à assemblage, verifica-se uma enorme preocupação com a sombra e com a materialização desse jogo de percepção lumínica, mesmo que negra e virtual. Ela faz uma abordagem ao objecto, ou ao humano, não os desvinculando da sua ausência, salientando-os por meio da silhueta, que se traduz na uniformização da cor. A influência da obra de Vieira da Silva e da Escola de Paris que representa, influenciou um grande número de pintores. Para além D’Assumpção, também tocou Menez [1926-1995], Fernando de Azevedo, e Marcelino Vespeira. 10 Segundo a Declaração Constitutiva do Nouveau Réalisme, redigida pelo crítico Pierre Restany, os “Nouveaux Realistes tomaram consciência da sua singularidade colectiva. Nouveau Réalisme = novas abordagens perceptivas do real.” KWY eram as letras que não faziam parte do alfabeto português, e vieram significar neste contexto: “Ká Wamos Yndo”. Em 1960 Paula Rego [1935- ] apresenta uma sátira crítica à ditadura de Salazar: “Salazar a vomitar a pátria”. Esta exposição foi uma promessa daquilo que viria a ser a obra de Paula Rego no futuro, e mais concretamente a sua celebridade nos dias de hoje. Grande estímulo para a arte nacional foi a atribuição em 1961 do prémio da Bienal de São Paulo a Vieira da Silva. António Sena [1941- ] – artista de prestigiado mérito no panorama artístico nacional, com uma obra que é em parte desconhecida na actualidade – preocupou-se nas relações entre a escrita e a pintura, nas suas profundas e perfeitas sinergias, entre a imagem e a forma dessa imagem enquanto signo de uma realidade. A pintura e o desenho confrontam-se a partir da inscrição e de um conjunto de formas sígnicas, representações de momentos objectivos de apropriação do quotidiano. São os gestos tornados perenes. As suas grafias são diacrónicas, tendo como princípio o Dadaísmo e terminando nas experiências letristas e informais do pós-guerra e no contexto do Expressionismo Abstracto. Também com este ímpeto referimos Ana Hatherly [1929- ] e Eurico Gonçalves [1932- ]. Por esta altura, Eduardo Nery [1938- ] aproximava-se de uma realidade pop, com obras que graficamente suscitavam enormemente a atenção do fruidor. A partir de 1965, Eduardo Nery decide explorar os efeitos ópticos na pintura. Formas arquitectónicas apareciam sob o efeito de geometrias que passavam a ser referenciais no seu trabalho, como espaços abstractos e indefinidos. Eduardo Batarda [1943- ] começou a expor em 1966, com trabalhos que causavam muita polémica, devido ao carácter sarcástico e erótico das suas produções. As obras são sátiras sociais, utilizando um formato muito próximo da banda desenhada, com narrativas jocosas nas quais são abordadas questões, quer sociais, quer culturais. (…)

Na década de 70, a poderosa influencia estrangeira1 tornou a arte portuguesa interventiva, também afectada pela conjuntura política de então e a necessidade de materializar os pensamentos e as ideias que vinham da Europa. É em 1965, que a galeria Divulgação promove os primeiros happenings e performances, que se realizaram em Portugal. A partir de 1956 a Fundação Calouste Gulbenkian, começa a atribuir bolsas aos artistas portugueses que pretendem fazer investigação no estrangeiro. Estes artistas traziam em primeira-mão novidades do exterior para a massa artística nacional, que apesar de conhecedor da actualidade internacional, sentia-se oprimida pelo regime político, que de certa forma controlava por meio de censura as “alfândegas” culturais. (…)

Formaram-se dois grandes grupos de trabalho: os Abstractos e os Neo-Figurativos, e acentuam-se as performances e os happenings. Até ao 25 de Abril, a arte portuguesa estava fulgurante, com a instituição de prémios; abertura de novas galerias; as instituições artísticas tinham extensos programas que aliciavam o público e encontravam-se perfeitamente activas e empenhadas. Na imprensa, a revista “Colóquio Artes” desempenhava um papel importante na veiculação da produção nacional, bem assim como, a sua directa associação aos críticos como por exemplo José Augusto França, Rui Mário Gonçalves, ou Fernando Pernes. A liberdade de criar e de pensar surge finalmente com o 25 de Abril. A revolução ultrapassou tudo aquilo que se conhecia, transportando o nosso país para uma dimensão social sem precedentes. Após o golpe militar, surge a necessidade de reorganizar o sistema vigente, e a vontade de festejar colectivamente, através de uma criação conjunta, no sentido de combater a iliteracia cultural. Em Coimbra, o Círculo de Artes Plásticas foi um dos dinamizadores destas actividades colectivas, bem assim como o surgimento de grupos dos quais se destaca o grupo Acre composto por Clara Meneres [1943- ], Alfredo Queiroz, e Lima de Carvalho [1940- ]; e o grupo Puzzle de que fizeram parte João Dixo [1941- ], Armando Azevedo [1946- ], Albuquerque Mendes [1953- ], Carlos Carreiro [1946- ], Graça Morais [1948- ], Dário Alves [1940- ], Jaime Silva [1947- ], Pinto Coelho [1942- ], Gerardo Burmester [1953- ], e Pedro Rocha [1945- ]. A revolução de Abril atribuiu aos artistas, aos críticos e ao público de um modo geral, um novo estatuto, numa democracia que se estava a iniciar, e numa sociedade pujante de desejo intervertido. (…)

Texto original em: http://www.chuvavasco.com/50anos.pdf

© António Marques/ Sala17 – 2016/2017

Advertisements